O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Santos, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

16 de outubro de 2013

A oração da fé e a soberania de Deus

A ORAÇÃO DA FÉ E A SOBERANIA DE DEUS
 
Dr. Paulo Romeiro
 
A soberania de Deus é a doutrina que afirma que Deus é supremo, tanto em governo quanto em autoridade sobre todas as coisas. Nos círculos dos "ensinos da fé", ela não é levada muito a sério. Verbos como exigir, decretar, determinar, reivindicar frequentemente substituem os verbos pedir, rogar, suplicar etc. Ao comentar João 14:13, 14, que diz: "E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma cousa em meu nome, eu o farei", Kenneth Hagin afirma:
 
A palavra "pedir" também significa "exigir". "E tudo quanto exigirdes em Meu nome, isso [Eu, Jesus] farei". Um exemplo disto é registrado no terceiro capítulo de Atos, quando Pedro e João estavam à Porta Formosa. Já demonstramos que Pedro sabia que tinha algo para dar quando disse ao aleijado: "Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou". Então Pedro disse: "Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!" Pediu, ou exigiu, que o homem se levantasse em nome de Jesus.
 
No Novo Testamento grego, o verbo "pedir", que aparece em João 14:13, 14 é aiteo. De acordo com W. E. Vine, aiteo sugere a atitude de um suplicante, uma petição de alguém que está em posição menor que a daquele a quem é feita a petição, como em Mateus 7:11 (uma criança pedindo a seu pai) e Atos 12:20 (vassalos fazendo um pedido ao rei). Este verbo aparece muitas vezes nas epístolas, como em Efésios 3:20; Colossenses 1:9, Tiago 1:5, 6; 1 João 5:14, 15. Em todas estas passagens seria impossível substituir o verbo "pedir" por "exigir".
 
Outro verbo usado no grego para pedir é erotao. Vine diz que o seu uso sugere que o suplicante está no mesmo pé de igualdade ou familiaridade com a pessoa a quem é feito o pedido. E usado, por exemplo, para um rei fazendo um pedido a um outro rei (Lucas 14:32). Vine continua:
 
...É significativo que o Senhor Jesus nunca usou aiteo no sentido de fazer um pedido ao Pai. "A consciência de sua igual dignidade, de sua intercessão potente e vitoriosa, é demonstrada nisto, que sempre que Ele pede, ou declara que Ele pedirá qualquer coisa ao Pai, sempre usa erotao, isto é, um pedido em termos de igualdade, João 14:16; 16:26; 17:9, 15, 20; e nunca aiteo".
 
Em Atos 3 (citado por Hagin, acima), o paralítico era colocado diariamente à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola. Novamente, o verbo "pedir" desta passagem no grego do Novo Testamento é aiteo (v. 2). Estaria então o paralítico exigindo uma esmola das pessoas? Ora, esmola não se exige, pede-se, e com muita humildade.
 
Em seu livro, O Direito de Desfrutar Saúde, R. R. Soares declara:
 
Usar a frase "se for a Tua vontade" em oração pode parecer espiritual, e demonstrar atitude piedosa de quem é submisso à vontade do Senhor, mas além de não adiantar nada, destrói a própria oração.
 
Qualquer pessoa que examinar com cuidado os Evangelhos, perceberá que a tônica da vida e do ministério do Senhor Jesus era fazer a vontade do Pai. Examine, por exemplo, João 4:34; 5:30; 6:38; 7:17. Quando ensinou seus discípulos a orar, Jesus incluiu na oração: "Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu". Será que Jesus estava errado? A conclusão óbvia é que não. Não tenho qualquer problema em dizer, ao orar: "se for a tua vontade", pois isto me coloca em boa companhia. Jesus orou assim no Getsêmani: "Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e, sim, o que tu queres" (Marcos 14:36). E novamente: "Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade" (Mateus 26:42). João escreveu ainda: "se pedirmos alguma cousa segundo a sua vontade, ele nos ouve" (1 João 5:14).
 
 
ROMEIRO, Paulo. Super Crentes. 6 Ed. São Paulo: Mundo Cristão. 1996. p. 36-38.

14 de outubro de 2013

Pra não dizer que não falei dos grilos


PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS GRILOS

Pr. Gilson Soares dos Santos

É um título um tanto quanto estranho, mas é verdadeiro. Todo mundo tá reclamando da infestação de grilos. Sempre tem alguém escrevendo algo sobre os milhares de grilos que estão “fazendo a festa” nas casas e ruas das nossas cidades. Tem gente chateada com o barulho feito pelos grilos. Tem dona de casa tirando de 20 a 30 grilos, todos os dias, de dentro do guarda roupas. Tem crente encontrando grilo morto até no bolso do paletó. Tem incrédulo perguntando se isto é o Apocalipse.

Então, pra não dizer que não falei dos grilos, quero levar meus queridos leitores a apreciarem a bela poesia de Gióia Júnior: O Grilo.

Assista ao vídeo:


Numa noite clara,
de Lua redonda
como um queijo branco
no prato do céu,
do meio do mato
uma voz ouvi,
que falava sempre:
CRI... CRI... CRI...

Vestido de noite,
perdido no escuro,
parado num canto
que não descobri,
seu corpo comprido,
de inseto elegante,
confesso não vi...
Só ouvi seu canto
na perdida sombra:
CRI... CRI... CRI...

Estava sozinho,
sem algum amigo
com quem conversasse;
então decidi:
"Com o grilo alegre
vou travar conversa".
- Ei, grilo, não temas,
que eu não sou de briga!
Creste no que eu disse?
... e o grilo, do escuro,
respondeu na hora,
como se entendesse:
CRI... CRI... CRI...


Fiquei muito alegre,
ele me entendia
e me respondia
com satisfação...
Pus-me a contar fatos
que o deixaram quieto,
prestando atenção:
"Uma vez, amigo,
veio ao mundo um homem
muito meigo e puro
perdoando a todos,
libertando escravos,
saciando pobres
e curando enfermos;
homem tão bondoso
como igual não vi..."
- Creste no que eu disse?
...Respondeu-me o grilo,
como se entendesse:
CRI... CRI... CRI...

"...Pois o tal profeta
(Ele era profeta),
como fosse humano,
dedicado e amigo,
recebeu dos homens
o pior castigo
que já conheci:
numa cruz pesada
foi crucificado,
suas mãos sangraram,
rasgadas, feridas,
sua fronte clara
foi lavada em sangue,
padeceu torturas
como nunca vi..."
- Creste no que eu disse?
...Respondeu-me o grilo,
como se entendesse:
CRI... CRI... CRI...

"...Mas, um dia, um belo
dia de domingo,
Esse homem puro,
que nenhum pecado
no mundo provou,
rompeu as cadeias
da morte gelada,
e ressuscitou...
Seu corpo, na pedra
do escuro sepulcro,
ninguém mais achou...
o nome bendito
do Ser soberano
da glória e da luz
soa como um hino,
às vezes humano,
às vezes divino,
o nome é ... JESUS...


Esse doce amigo
que sofreu assim
padeceu castigo
e morte por mim.
Para ser sincero,
devo confessar:
Ele foi ferido
para me salvar..."


- Bem, já se faz tarde,
vou dormir, amigo,
boa-noite, Grilo...
Mas, ó companheiro,
tu creste de fato
no que eu disse aqui?

... Respondeu-me o grilo,
como se entendesse:
CRI, CRI, CRI, CRI, CRI!!!


8 de outubro de 2013

O dízimo transformado em dividendos

O DÍZIMO TRANSFORMADO EM DIVIDENDOS
 
Pr. Gilson Soares dos Santos
 
A religião, para muitos, é uma verdadeira fonte de lucros. É um verdadeiro comércio. Descaradamente, homens e mulheres, em nome de Deus, sugam o dinheiro do povo, arrancam os minguados centavos do pobre, prometendo-lhe a graça de Deus, o milagre, a bênção do Altíssimo. A partir de um falso entendimento sobre os dízimos, ou melhor, a partir de uma deturpação, uma distorção do texto sagrado que fala sobre os dízimos, esses mercenários ludibriam o povo e aumentam seus impérios.
 
Hoje venho transcrever, na íntegra, o conteúdo da página 26, da Revista Ultimato, Número 295, Julho-Agosto de 2005, que trata sobre “O dízimo transformado em dividendos”.
 



 
 
 

O DÍZIMO TRANSFORMADO EM DIVIDENDOS
 
A ideia de que o dízimo ou outra contribuição abrem as comportas dos céus e deixam derramar tanta prosperidade que não se tem onde guardar está tão generalizada que parece não haver retorno.

Há empresários cristãos e recém-convertidos dando o dízimo com todo afoito, na esperança de serem bem-sucedidos nos negócios, de preferência, imediatamente. A malfadada teologia da prosperidade criou essa mentalidade mercantilista do dízimo. Outro dia, um pequeno empresário, com apenas um mês de conversão, comprou um bombom por vinte reais para ajudar a pagar a passagem de um missionário de partida para a Venezuela. No dia seguinte, algumas novas oportunidades de lucro chegaram ao seu escritório e ele e sua esposa logo relacionaram uma coisa com a outra.

Há igrejas e pastores encorajando, com sucesso, os fiéis a entregarem ofertas polpudas, prometendo-lhes as tais chuvas de bênçãos (materiais). Alguns dos ofertantes não conseguem nem sequer esconder a negociata que estão realizando com Deus. No auge da euforia, há quem doe todos os seus bens, ou quase todos, não por causa daquela devoção intensa e altruísta da viúva pobre que depositou no gazofilácio dois leptos (pequenas moedas de cobre quase sem valor), mas para poder escapar de uma falência, de uma doença terminal, de uma separação conjugal ou para abrir uma nova empresa e adquirir mais e mais bens de consumo.

Essa capacidade maligna de transformar a arte de dar em arte de receber está profanando e tornando antipática a palavra dízimo, de origem santa. A mão que se abre para ofertar é também a mão aberta para receber algo de maior valor. Isso vai totalmente de encontro àquele princípio ensinado por Jesus: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (At 20.35).

Jesus deixou claro que o maior valor da contribuição é espiritual e não monetário. É por esta razão que ele valorizou mais as duas pequeninas moedas de “muito pouco valor” da mulher pobre do que as “grandes quantias” dos ricos (Mc 12.41-44). A legitimidade do dízimo e de qualquer oferta está na vontade de agradecer a Deus, na necessidade de adorá-lo e no privilégio de servi-lo. Daí a postura de Paulo: “Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá” (1 Co 13.3).

O dízimo transformado em dividendos (parte dos lucros líquidos que cabe ao acionista de uma empresa mercantil) inverte os papéis e supervaloriza a obra em detrimento da graça. Deus assume o papel de devedor e o homem assume o papel de credor. A partir do momento em que você contribui com alguma coisa para o reino de Deus ou se nega a si mesmo algum prazer pecaminoso, Deus se torna seu devedor.

 
Originalmente, o dízimo era uma responsabilidade do povo de Deus. Um décimo de todas as posses e de toda a receita de todas as tribos (exceto a tribo de Levi) era destinado aos levitas como retribuição pelo trabalho religioso que realizavam. Já o dízimo dos levitas era destinado aos sacerdotes (Nm 18.21-29). Quando os dízimos não eram pagos, toda a estrutura era abalada, inclusive a assistência às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros (Dt 14.28-29). Além da agradável sensação do dever cumprido, os israelitas fiéis no dízimo e nas demais obrigações éticas eram, naturalmente, abençoados por Deus com fartas colheitas, das quais dependiam sua sobrevivência e seu bem-estar. Essa prosperidade não tem nada a ver com a prosperidade consumista, acentuada hoje em dia (carros importados, roupas sofisticadas, finas iguarias, viagens, os melhores teatros e casas na cidade, no campo e na praia).


1 de outubro de 2013

Alguns testes pelos quais nossa adoração deve ser provada

ALGUNS TESTES PELOS QUAIS NOSSA ADORAÇÃO DEVE SER PROVADA
 
J. C. Ryle
 
Este é um assunto de grande importância, e todo cristão deveria encará-lo com honestidade. Há muitos que são capazes de esclarecer as dificuldades envolvidas neste assunto por referirem-se aos seus próprios sentimentos. Eles nos dirão que não são teólogos e não pretendem compreender a diferença entre uma e outra escola de teologia, mas sabem que a adoração da qual participam os faz sentir-se tão bem, que não podem ter dúvida de que seja correta. Não estou disposto a deixar que tais pessoas se afastem facilmente do assunto deste livro. Não posso esquecer que os sentimentos religiosos são bastante enganosos. Existe uma empolgação natural produzida em algumas mentes por ouvirem música espiritual e assistirem a espetáculos religiosos, mas essa empolgação não é verdadeira devoção. Essa empolgação é forte é contagiante enquanto dura; mas logo vem e logo se vai. É apenas uma influência sensitiva natural que até um romanista pode sentir ocasionalmente, mas, apesar disso, ele continua romanista tanto em doutrina como em prática.
 
1. A verdadeira adoração espiritual afetará o coração e a consciência do homem.
 
Ela o fará sentir mais agudamente a malignidade do pecado e sua própria corrupção. Aprofundará a sua humildade e o tornará mais dedicado e cuidadoso em relação à sua vida espiritual. A falsa adoração pública, à semelhança de tomar uma dose de uísque ou de mascar ópio, produzirá impressões mais fracas a cada ano. A verdadeira adoração, como um alimento saudável, fortalecerá aquele que dela participa e o fará crescer interiormente a cada ano.
 
2. A verdadeira adoração espiritual atrairá o homem à comunhão mais íntima com o Senhor
Jesus Cristo.
 
Ela o elevará acima de igrejas, ministros e ordenanças. Ela o tornará sedento e faminto por uma contemplação do Rei. Quanto mais ele ouve, lê, ora e louva, tanto mais ele sente que nada alimenta a sua alma, exceto o próprio Cristo, e que a comunhão sincera com Ele é "verdadeira comida e verdadeira bebida". No tempo da necessidade, o falso adorador se voltará aos auxílios externos, aos ministros, às ordenanças, aos sacramentos. O verdadeiro adorador se voltará instintivamente para Cristo, pela fé, assim como a agulha da bússola se volve para o polo.
 
3. A verdadeira adoração espiritual ampliará continuamente o conhecimento espiritual do homem.
 
Proporcionará vigor, consistência, significado e firmeza ao seu cristianismo. Um verdadeiro adorador saberá, a cada ano, mais a respeito do ego, de Deus, do céu, das obrigações, da doutrina, da prática e da experiência. O seu cristianismo é algo vivo e crescerá. O falso adorador nunca irá além dos velhos princípios e elementos carnais de sua teologia. Todo ano, ele andará em círculos, como um cavalo num moinho, e, apesar de muito trabalho, nunca avançará. O seu cristianismo é morto, não pode crescer e multiplicar.
 
4. A verdadeira adoração espiritual aumentará continuamente a santidade na vida do
homem.
 
Ela o tornará cada vez mais vigilante de sua língua, temperamento, tempo e comportamento em todas as relações da vida. A consciência do verdadeiro adorador se torna mais sensível ano a ano. A consciência do falso adorador se torna mais cauterizada e mais insensível a cada ano. Dê-me a adoração que resistirá ao teste do grande princípio delineado por nosso Senhor: “Pelos seus frutos os conhecereis”. Dê-me a adoração que santifica a vida, faz o homem andar com Deus e deleitar-se na lei de Deus; a adoração que o eleva acima do temor e do amor ao mundo; a adoração que o capacita a exibir algo da imagem e da semelhança de Deus para seu próximo; a adoração que o torna justo, amável, puro, gentil, paciente, humilde, altruísta e moderado. Essa é a adoração que procede do céu, possui o selo e a marca de Deus.
 
Não importa o que os homens gostam de dizer, o grande teste do valor de qualquer adoração é o efeito que ela produz na vida dos adoradores. Um homem pode nos dizer que o ritualismo é a melhor e mais perfeita maneira de adorar a Deus. Ele talvez despreze o culto simples das congregações evangélicas. Talvez exalte a excelência dos adornos, da decoração e da pompa em nosso culto a Deus. Contudo, devo dizer-lhe que os verdadeiros cristãos provarão o seu sistema de adoração por meio dos frutos. Visto que os adoradores ritualistas podem volver-se de celebrações e comunhão matutinas para óperas e corridas; que podem oscilar entre o confessionário e o salão de bailes, os defensores do ritualismo não devem ficar surpresos se pensamos que a adoração ritualista tem pouco valor. Ouçamos a conclusão de todo este assunto. A melhor adoração pública é aquela que produz o melhor cristianismo pessoal. Os melhores cultos da igreja para a sua congregação são aqueles que tornam os seus membros mais santos no lar e na vida particular. Se quisermos saber se a nossa adoração pública está nos fazendo bem, devemos prová-la por meio desses testes. Ela vivifica a nossa consciência? Ela nos conduz a Cristo? Aprimora o nosso conhecimento? Santifica a nossa vida? Se ela faz tudo isso, podemos confiar nela, É uma adoração que não nos deixa envergonhados.
 
Esta chegando o dia em que haverá uma congregação que jamais será desfeita, um dia de descanso que nunca terminará, um cântico de louvor que jamais cessará e uma assembleia que nunca será dispersa, Nessa assembleia, estarão todos aqueles que adoraram a Deus “em espírito” na terra. Se somos esses adoradores, estaremos lá. Aqui, adoramos frequentemente a Deus com um profundo senso de fraqueza, corrupção e imperfeição, Lá, seremos capazes, com um corpo renovado, de servi-Ia sem fadiga e atendê-la sem distrações.
 
Aqui, em nosso melhor, vemos com obscuridade, como por espelho, e conhecemos o Senhor Jesus imperfeitamente. Sentimos tristeza porque não o conhecemos melhor e não o amamos mais, Lá, estando libertos de toda a impureza e contaminação do pecado remanescente, veremos a Jesus como temos sido visto e conheceremos como somos conhecidos, Com certeza, se a fé tem sido agradável e nos tem dado paz, a contemplação pessoal será muito melhor. Aqui, muitas vezes achamos difícil adorar a Deus com regozijo por causa das tristezas e cuidados deste mundo. Lágrimas devido à perda daqueles que amávamos tornam constantemente árduo o cantar louvores, Esperanças frustradas e tristezas familiares têm-nos feito, algumas vezes, pendurar nossas harpas nos salgueiros. Lá, toda lágrima será enxugada, todo santo que morreu em Cristo nos verá novamente, e todas as coisas difíceis da jornada de nossa vida se tornarão claras e nítidas como o sol ao meio-dia. Aqui, sentimos que estamos comparativamente sozinhos e que até na casa de Deus os verdadeiros adoradores espirituais são poucos. Lá, veremos toda a multidão de irmãos e irmãs que nenhum homem pode enumerar; e todos eles terão uma só mente, um só coração e estarão livres de toda mancha, fraqueza e imperfeição, regozijando-se todos no mesmo Salvador e prontos para passarem a eternidade em seu louvor. No céu teremos muitos companheiros de adoração.
 
Tendo esperanças como essas, ergamos os nossos corações e olhemos adiante! O tempo é curto. A noite está avançada. O dia está chegando. Adoremos, oremos, louvemos, leiamos. Batalhemos diligentemente pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos, resistindo com coragem todos os esforços para destruir a adoração espiritual. Esforcemo-nos, com zelo, para deixar a luz da adoração evangélica como herança para os filhos de nossos filhos. E, brevemente, aquele que vem virá e não tardará. Benditos serão aqueles, somente aqueles, que forem reconhecidos, naquele dia, como verdadeiros adoradores, os quais adoram a Deus “em espírito e em verdade”!
 
RYLE, J. C. Adoração: Prioridade, Princípios e Prática. São José dos Campos: Fiel. 2010. P. 18-20)


22 de setembro de 2013

Fé e Regeneração: Qual vem primeiro?


FÉ E REGENERAÇÃO: QUAL VEM PRIMEIRO?

Pr. Gilson Soares dos Santos

Fé e Regeneração. Regeneração e Fé. É comum encontrarmos estudantes de teologia que ainda não sabem (ou não se posicionaram) sobre a ordem da salvação, a chamada ordo salutis. A fé vem antes da regeneração? A regeneração vem antes da fé? As duas são simultâneas? É claro, a ordo salutis não é formada apenas pela regeneração e a fé. Inclusive já publicamos aqui em nosso blog sobre a ordem da salvação. Mas gostaríamos de tratar apenas sobre estes dois momentos da salvação: a regeneração e a fé, qual vem primeiro?

Se você, estudante de teologia, se declara um reformado, se autodenomina calvinista, precisa saber que, na linha reformada, a regeneração vem antes da fé. Na linha arminiana prevalece o contrário: para os arminianos, a fé vem primeiro que a regeneração.

Segundo Franklin Ferreira e Alan Myatt “Calvino foi o primeiro teólogo a agrupar de forma mais ou menos sistemática os vários elementos da ordem da salvação, ainda que sem a preocupação de discutir o assunto.” (2008, p. 737). Ainda de acordo com Ferreira e Myatt (2008, p. 738), Calvino, em suas Institutas, coloca a fé antes da regeneração. Veja a sequencia de Calvino:

1. União mística
2. Fe
3. Arrependimento
4. Reconciliação
5. Regeneração
6. Justificação & Santificação

Embora essa seja a sequência de Calvino, os teólogos reformados não a seguem. A maioria deles coloca a regeneração precedendo a fé. Vejamos o que diz o teólogo reformado R. C. Sproul:

 “Na regeneração, Deus muda nosso coração. Ele nos dá uma nova disposição, uma nova inclinação. Ele planta um desejo por Cristo em nosso coração. Nunca podemos confiar em Cristo para nossa salvação a menos que primeiro o desejemos. É por isso que dissemos antes que a regeneração precede a fé”. (eleitos de Deus, p. 103).

Outros teólogos reformados, a exemplo de Charles Hodge, A. A. Hodge, A. H. Strong, Herman Bavinck, Louis Berkhof, John Murray, Wayne Grudem, etc, também apresentam a regeneração precedendo a fé. Grudem, em sua Teologia Sistemática, diz o seguinte:

Definimos a regeneração como o ato de Deus de despertar a vida espiritual dentro de nós, trazendo-nos da morte espiritual para a vida espiritual. Sobre essa definição, é natural entender que a regeneração vem antes da fé salvífica. De fato, é essa obra de Deus que nos dá capacidade espiritual para responder a Deus com fé. Entretanto, quando dizemos que ela vem “antes” da fé salvífica, é importante lembrar que elas aparecem tão juntas que geralmente nos parecerá que estão ocorrendo ao mesmo tempo.

O conceito reformado de que a regeneração precede a fé está baseado no primeiro dos cinco pontos do calvinismo, a depravação total. Se o homem é totalmente depravado, está totalmente morto em seus delitos e pecados, este homem jamais poderá ter fé salvadora. Para que ele tenha fé é preciso que Deus o desperte da morte espiritual, acordando-o desse estado de total inércia. Somente assim o homem poderá desejar a salvação. O Espírito Santo concede a graça da regeneração, levando o homem à fé e ao arrependimento.

A modo de conclusão podemos dizer que a maioria dos reformadores crê que a regeneração precede a fé, embora não seja sustentada uma ordem exageradamente cronológica. Para os arminianos a fé precede a regeneração.

Você pode consulta os seguintes livros:

1.     As institutas de Calvino, Vol III.

2.     Eleitos de Deus. R. C Sproul.

3.     Teologia Sistemática, de Franklin Ferreira e Alan Myatt. Vida Nova.

4.     Teologia Sistemática de Wayne Grudem. Vida Nova.

5.     Eleitos, mas livres, de Norman Geisler. Vida.

17 de setembro de 2013

Culto transformado em show

CULTO TRANSFORMADO EM SHOW

Pr. Gilson Soares dos Santos

Sou um dos muitos descontentes com a banalização do culto. Percebo que muitos líderes, de maneira proposital, mudaram o padrão bíblico do culto que satisfaz a santidade de Deus para um modelo que satisfaz aos caprichos do homem, mudando até sua nomenclatura. O culto foi transformado em show.

Quero transcrever, na íntegra, o conteúdo da página 25, da Revista Ultimato, Número 295, Julho-Agosto de 2005, que trata sobre “Culto transformado em show”.

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Culto transformado em show

Os israelitas leram o Livro da Lei do Senhor durante três horas, e passaram outras três horas confessando os seus pecados e adorando o Senhor (Ne 9.3)

Não é apenas a mídia que está usando a palavra show para se referir a alguns cultos. Nós mesmos usamos esse termo em nosso meio. Uma de nossas revistas chama-se Show da Fé. As missas celebradas pelo padre Marcelo Rossi são usualmente denominadas de “showmissas”.

As palavras culto e show não combinam, a não ser que lhes demos significados modernos. O dicionário Aurélio define show como “um espetáculo de teatro, rádio, televisão etc., geralmente de grande montagem, que se destina à diversão, e com a atuação de vários artistas de larga popularidade, ou às vezes de um só”. Ora, nessa definição, nada combina com o significado de culto, que o mesmo dicionarista diz ser “adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião”. “A igreja existe, não para oferecer entretenimento, encorajar vulnerabilidade, melhorar autoestima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Se falharmos nisso”, conclui Philip Yancey, “a igreja fracassa” (Igreja: Por Que me Importar, p. 25)

Outro dia, Silas Tostes, um dos organizadores do 4º Congresso Brasileiro de Missões, mostrou-se inseguro quanto ao número de participantes, por ser um congresso de missões e não um show de música gospel.

De fato, em muitas igrejas, o tempo destinado à exposição da Palavra é cada vez menor e o tempo reservado aos cânticos é cada vez maior. Em alguns cultos já não há lugar para o antigo sermão, nem para algum substituto dele. Assim como há geleia light, maionese light e pão light, temos o culto light (leve, ligeiro, alegre, jocoso etc.). Embora a música de adoração seja de suma importância e de fundamento bíblico (basta recordar o desempenho dos cantores e instrumentistas levitas), o papel da música religiosa hoje em dia não implica, obrigatoriamente, uma elevação da qualidade dos adoradores e do culto. A decadência do culto transformado em show leva obrigatoriamente a outros absurdos: certo “levita” explicou que o ministro de música (no caso, o tal artista de larga popularidade, da definição do Aurélio) “deve andar de carro novo e vestir-se elegantemente porque, afinal de contas, tem a responsabilidade de conduzir o povo ao trono de Deus em adoração”.

Por ocasião do avivamento acontecido em Jerusalém sob a liderança de Esdras e Neemias, logo após o retorno dos exilados, gastavam-se três horas para a leitura da Lei do Senhor e mais três horas para a confissão de pecados e adoração (Ne 9.1-5).

10 de setembro de 2013

A Graça transformada em libertinagem

A GRAÇA TRANSFORMADA EM LIBERTINAGEM
 
Pr. Gilson Soares dos Santos
 
Somos conscientes que as profecias bíblicas cumprir-se-ão, não da maneira que queremos ou imaginamos, mas do modo como o Senhor descreve em Sua Palavra. O apóstolo Paulo, num tom profético, alerta: “1 Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, 2  pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3  desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, 4  traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, 5  tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.” (II Timóteo 3.1-5). Sentimos que estamos vivendo os “tempos difíceis” citados pelo apóstolo. Presenciamos a graça sendo transformada em libertinagem, e, mesmo sabendo que isso é cumprimento da Palavra, é difícil presenciar tamanho descaso com as coisas de Deus.
 
Quero transcrever, na íntegra, o conteúdo da página 24, da Revista Ultimato, Número 295, Julho-Agosto de 2005, que trata sobre “A graça transformada em libertinagem”.
 
 
 
 
A graça transformada em libertinagem
 
Quem põe a boca no trombone para fazer uma das mais sérias de todas as denúncias é Judas, “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago” (Jd 1). É o único escritor do Novo Testamento que menciona sua ligação com Jesus Cristo e com mais alguém. Em vez de se apresentar como Judas-não-o-Iscariotes para se diferenciar do outro Judas, aquele que traiu o Senhor (Mt 10.4), o autor do terceiro menor e penúltimo livro da Bíblia prefere citar seu parentesco com Tiago.

A denúncia de Judas não poderia ser mais explícita: “[Certos homens] transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor” (Jd 4). Em outras palavras: “Eles torcem a mensagem a respeito da graça do nosso Deus a fim de arranjar uma desculpa para a sua vida imoral” (NTLH). A Comunidade de Taizé prefere afirmar que certas pessoas “abusam da graça do nosso Deus para levar uma vida dissoluta”.

Esse estrago está sendo cometido por alguns intrusos que já se infiltraram sorrateiramente no meio da comunidade e agora participam de suas festas de fraternidade (Jd 12) e usam de desavergonhada bajulação (Jd 16). No decorrer da epístola, Judas chama os prostituidores da maravilhosa graça de “sonhadores” (v. 8), “rochas submersas” (v. 12), “pastores de si mesmos” (v. 12), “nuvens sem água”, “árvores de outono [mas] sem frutos, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz” (v. 12), “ondas bravias do mar, espumando seus próprios atos vergonhosos” (v. 13) e “estrelas errantes [a caminho das] mais densas trevas” (v. 13).

O que essas “rochas submersas” estão fazendo é muito grave. Quais icebergs, que escondem 90% do seu volume debaixo do nível do mar, elas realizam um trabalho de corromper a maravilhosa graça, declarando temerariamente que, depois de termos nos tornado cristãos, “podemos andar como quisermos, sem medo da ira divina” (Jd 4, BV)

Ora, a distância entre a graça divina e a libertinagem humana é imensurável. A graça é a manifestação maior do amor, da misericórdia, da compaixão e da paciência de Deus. E a libertinagem é a manifestação maior do pecado, da provocação, da maldade e da baixeza do homem. A graça de Deus parece não ter sinônimo perfeito (nem definição plenamente satisfatória). Mas os sinônimos da libertinagem são licensiosidade, dissolução, devassidão, depravação. Remover a maravilhosa graça do seu pedestal e colocá-la na mesma prateleira da libertinagem é uma violência que precisa ser denunciada em alto e bom som.

Essa fabulosa indústria de transformação, que pretende acalmar a consciência dos vencidos pela carne e enriquecer os intrusos, os advogados do diabo, os profetas da pecaminosidade e a mídia sedenta de ibope e ouro — existe há muito tempo e transforma não apenas graça em libertinagem. As outras transformações aparecem nas demais matérias de capa.


6 de setembro de 2013

Ética e Infinito, em Emmanuel Lévinas


ÉTICA E INFINITO, EM EMMANUEL LÉVINAS
 

Gilson Soares dos Santos e Ana Cláudia Gomes


A filosofia de Emmanuel Lévinas (1905-1995) tem como propósito o discurso sobre a responsabilidade para com o outro ser humano. Ele procura enfatizar a não-indiferença pelo rosto do outro. Sua ética é exposta, de forma clara, em totalidade e infinito e ética infinito, uma das suas principais obras de filosofia, como “a ética da responsabilidade para com os outros”. Sua filosofia traz uma resposta para a crise de ética de sua época. Para ele, o começo da filosofia é a responsabilidade com o outro. O infinito é o outro. O termo “metafísica” encontra em Lévinas significado próprio. A metafísica de Lévinas é a ética. É nosso propósito, neste trabalho, fazermos uma leitura interpretativa da ética levinasiana, buscando entender, acima de tudo, a definição que o filósofo faz sobre o rosto do outro e da nossa responsabilidade para com o outro, que não é apenas exterioridade do rosto, mas o humano que nos torna humano.


Lévinas inicia tratando da natureza histórica da filosofia, que buscou sintetizar universalmente tudo aquilo que é significativo, reduzindo as coisas ao conceito de totalidade. Uma filosofia que exalta o sujeito, colocando-o num pedestal, e, portanto, traindo a ideia de sujeito como estar sujeito a algo ou alguém. Para ele, na história da filosofia foi difícil encontrar uma ruptura entre totalidade e infinito, e foi somente em Franz Rozensweig que Lévinas encontrou, pela primeira vez, uma crítica radical contra a totalidade. Em oposição à totalidade, que foi uma tendência do pensamento filosófico ocidental, a filosofia levinasiana construiu a ideia de infinito. E, embora a idéia de infinito em Lévinas seja construída a partir de Descartes, sua filosofia estabelece diferença da filosofia cartesiana porque para Descartes o infinito é Deus, para Lévinas o infinito é o outro. A possibilidade do Outro, da responsabilidade com o outro. E isso não se trata de pensar conjuntamente o eu e o outro, mas, conforme o filósofo, de estar diante, no "frente a frente" dos humanos.

1 O ROSTO

A partir do rosto do outro, de um olhar para o rosto do outro, Emmanuel Lévinas busca construir uma nova visão de humano. Porém a exterioridade do rosto não permite que se tenha um conhecimento do outro. Não nos limitamos a ver o rosto do outro como nariz, olhos, testa, queixo, etc., Se assim o fizermos, então nos voltamos para o outro como objeto. É nesse ponto que Lévinas mostra que "o que é especificamente rosto é o que não se reduz a ele". Não importa o que possamos ver, há no rosto uma pobreza essencial, e não se pode ter um conhecimento seguro sobre o outro apenas contemplando a exterioridade do rosto, pois simplesmente o rosto pode disfarçar. Porém é o rosto que nos impede de matar. Isso faz sentido se conseguirmos ver o humano no rosto do outro. A primeira relação que temos com o rosto é uma relação de ética. A primeira palavra do rosto é "tu não matarás". De certa forma, quando nos encontramos com o outro podemos todas as coisas, inclusive matar o outro, mas não o fazemos porque o rosto do outro diz "Podes matar", mas o mesmo rosto diz "Não matarás". O rosto me leva à responsabilidade. Porque o rosto do humano corresponde ao humano. Talvez seja possível tirar a vida de um homem, porém seu rosto continuará lá.

Lévinas confirma a indagação de Philippe Nemo admitindo que o discurso humano também é uma maneira de se romper com a totalidade, porém, deixa bem claro que esse discurso começa no rosto do humano. Para Lévinas, o rosto fala. A capacidade de compreender isso é que leva ao discurso. Porque é o rosto que torna possível e começa todo o discurso.

O rosto do outro me dá uma ordem para não matá-lo, diz a ética levinasiana, e essa ordem obedeço porque vejo no rosto do outro "o pobre por quem tudo posso e a quem tudo devo." Embora Lévinas admita que existe o ódio e a violência contra o próximo, defende que isso acontece num segundo momento, por causa da presença do terceiro elemento, isto é, se estou diante do outro devo-lhe tudo, mas há o terceiro, o qual não sei estará de acordo com o outro. Para que as guerras, o ódio, a inveja, as atitudes desumanas não existam, é preciso estabelecer a relação interpessoal com o outro, mas também com todos os homens.

Lévinas sustenta que está construindo a ética do "rosto" que rompe com as filosofias da totalidade. Ele parte da idéia cartesiana do infinito: eu não posso, como ser finito, ter em mim a ideia de um Deus infinito, exceto se esse Deus, que é infinito, inserir tal ideia em mim. Para ele, no acesso ao rosto há, certamente, também a idéia de Deus. O infinito começa a partir do rosto do outro, da responsabilidade com o outro.

 3 A RESPONSABILIDADE POR OUTREM

Lévinas mostra, em sua filosofia, que a responsabilidade deve estar direcionada a outrem. Para ele, essa é a estrutura essencial, estrutura primeira. Essa responsabilidade é considerada na ética como o próprio nó do subjetivo. É romper com o pensamento filosófico egoísta. Somente assim, assumimos responsabilidades com o outro. Segundo o filósofo, "o laço com o outro só se aperta com responsabilidade". Essa responsabilidade nos faz mais humanos, mais servos, mais "livres para servir". É uma diaconia que envolve responsabilidade com o outro sem esperar nada em troca, sem buscar recompensas, sem desejo de reciprocidade. “É uma responsabilidade que vai além do que eu faço”, defende.

Lévinas nos leva à compreensão de que, se olharmos o rosto do outro positivamente, certamente teremos abraçado a ideia da necessidade de uma doação em prol do outro, por quem me torno inteiramente responsável, mesmo sem assumir responsabilidades para com ele.

Na filosofia levinasiana, a responsabilidade com o outro vai a tal ponto que nos tornamos responsáveis quando os outros não fazem o que têm que fazer. Lévinas afirma "eu próprio sou responsável pela responsabilidade de outrem". Jamais alguém deve pensar que "o outro não é nada, ele nada tem a ver comigo". Esse tipo de pensamento é o que gera a guerra, que coloca todos os indivíduos dentro da totalidade, fazendo deles parte de um todo. Ser humano, para a ética levinasiana, "é viver como se não fosse um ser entre os seres".

Diante de nossas reflexões sobre a filosofia de Lévinas, compreendemos que sua ética é contextual, aplica-se perfeitamente à realidade do mundo contemporâneo, que necessita de homens e mulheres que vivam ética e amorosamente esta vida. Se conseguirmos enxergar o humano no rosto do outro, assumiremos responsabilidades para com outrem, e certamente viveremos a ética de Emmanuel Lévinas, que é a ética de todos os humanos.

BIBLIOGRAFIA

LÉVINAS, Emmanuel. Ética e infinito – diálogos com Philippe Nemo. Lisboa: Edições 70, 1982. P.67-93.