O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

15 de junho de 2017

Salmos e Hinos: O Pioneiro Esquecido


SALMOS E HINOS: O PIONEIRO ESQUECIDO

Luciana Barbosa*

Às vezes questiono acerca da história do Salmos e Hinos no contexto que me encontro desde criança até os dias de hoje, onde esse belíssimo hinário é, e sempre foi esquecido e desvalorizado pelos cristãos, principalmente os que fazem parte das Igrejas Congregacionais do Brasil em suas diversas denominações. Acredito que isto aconteça por desconhecimento de sua história e origem. E para começar esse artigo gostaria de contar uma história sobre este hinário e os hinos que compõem essa coletânea tem contribuído para levar almas aos pés de Cristo.

Conta-se que certo missionário Evangélico quando se encontrava em Sião conheceu um descendente de certa tribo habitando nas montanhas, na maior selvageria e sem qualquer conhecimento da religião cristã. Sentiu desejo de ir até lá e ensinar-lhes o amor de Deus. Seus amigos tentaram dissuadi-lo da ideia. De joelhos, ele procurou a resposta e a obteve, ouvindo uma voz, como vinda do céu, que dizia: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." Entendeu ser essa a vontade de Deus. Durante a viagem, sentiu-se encorajado com as palavras que ouvia em seu coração: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos." Depois de longa viagem, chegou ao lugar desejado. Viu-se cercado de uma multidão de selvagens aguerridos, ameaçadores, armados de flechas e lanças. O missionário não temeu. Tomando seu violino, afinou-o e começou a tocar e a cantar o belo hino que assim começa "Saudai o nome de Jesus!" número 231 do Salmos e Hinos. Enquanto cantava e tocava, mantinha-se de olhos cerrados. Ao chegar na última quadra do hino que diz: "Ó raças, tribos e nações, ao Rei divino honrai", abriu os olhos e viu, com grande alegria, que os selvagens haviam depositado suas armas no chão e permaneciam extasiados, comovidos com a música que ouviam. Fazendo-se entender, pediram ao missionário que permanecesse com eles, o que ele aceitou. Aprendeu-lhes a língua e começou a ensinar-lhes a Salvação em Jesus Cristo. E muitas vezes cantaram com profunda gratidão: Saudai o nome de Jesus!

Quando falamos do Salmos e Hinos somos levados automaticamente a associa-lo a figura de Robert Kalley e sua leal esposa Sarah Kalley os fundadores da primeira igreja evangélica em língua portuguesa fundada no Brasil no ano de 1855 na cidade do Rio de Janeiro, a igreja Fluminense que encontra-se lá até os dias de hoje. No inicio eram 50 salmos e hinos que foram usados pela primeira vez em 17 de novembro de 1861, seis dias após sua chegada ao Brasil. Desta maneira, "Salmos e Hinos" transformou-se na gênese de uma espécie de "teologia comum" às diversas denominações, servindo por décadas como único instrumento litúrgico em igrejas e congregações muitas vezes dirigidas dos diversos tipos de governo eclesiástico, bem como posições teológicas conflitantes (formas de batismo; predestinação x livre arbítrio; ceia memorialista x ceia com presença real;etc). Aqui abro um parênteses, onde destaco a IPB e Batistas, quando observamos a história do hinário das igrejas Presbiterianas (Novo cântico) e o das igrejas Batistas (Cantor Cristão) concluímos que estes hinários tiveram como base o Salmos e hinos.

A história do novo cântico nos conta que o hinário usado pela Igreja Presbiteriana do Brasil era o “Salmos e hinos”. Mas, por julgarem-no passível de correções, no aspecto linguístico e doutrinário o concilio determinou a criação de um hinário que melhor servisse a IPB e outras igrejas de denominações irmãs. Foi criado um hinário provisório com hinos do reverendo Jerônimo Gueiros, Antônio Almeida e de outros autores, sendo utilizado nas igrejas do Norte e Nordeste. A preocupação e o zelo pela Escritura levaram estes reverendos a cristalizar no coração da IPB, uma de suas maiores necessidades, isto é, cantar com mais convicção e fidelidade às doutrinas bíblicas. Hoje a IPB tem seu hinário próprio, porém até esse dia chegar utilizava-se o Salmos e hinos. 

Já o cantor cristão não é muito diferente, foi o segundo hinário dos evangélicos brasileiros. Foi publicado em 1891 e sua primeira versão continha apenas 16 hinos; já em 1921 saiu a 17° edição com 571 hinos e nos diz a história dos batistas que esse valor, naturalmente deve ser dado também aos “Salmos e hinos”, pois, beberam dessa fonte durante anos.

Infelizmente hoje não é isso que acontece, a preferência é pelo que é dos outros e muitas vezes tais músicas professam aquilo que não professamos como nossa confissão de fé. Hoje mais de 150 anos, e com mais de 500 hinos próprios, um mais belo que o outro são negligenciados, busca-se outras fontes que muitas vezes derramam águas sujas. Até quando isso irá acontecer? Até quando o pioneiro ficará no esquecimento? E para concluir da melhor forma possível, deixo o hino que foi citado no inicio, que conduziu o povo ao arrependimento e a busca de Deus.

COROAI 231

1. Saudai o nome de Jesus! 
Arcanjos, adorai! 
Ao Filho do bendito Deus, 
Com glória coroai! 
2. Ó redimida geração 
Do bom e eterno Pai, 
Ao grande Autor da salvação 
Com glória coroai! 
3. Ó perdoados cujo amor 
Bem triunfante vai, 
Ao Deus varão, Conquistador, 
Com glória coroai! 
4. Ó raças, tribos e nações, 
Ao Rei divino honrai! 
A Quem quebrou os vis grilhões 
Com glória!

Salve o nosso Salmos e Hinos!


5 de junho de 2017

Algo sobre o Pietismo


ALGO SOBRE O PIETISMO

Pr. Gilson Soares dos Santos

     Atendendo a pedidos, estamos postando hoje sobre o Pietismo. Veremos o que é, onde começou, com quem começou, quais os principais ensinos e representantes.

1_ O que é o Pietismo

     “O Pietismo alemão denota um movimento surgido na Igreja Luterana, na segunda metade do século 17, o qual teve como uma de suas características mais evidentes, a reação contra um cristianismo que sob muitos aspectos se tornara vazio, tendo uma prática dissociada da genuína doutrina bíblica.”[1].

     O Pietismo também pode ser considerado “Uma tendência que volta a ocorrer dentro da história da Cristandade para enfatizar mais as praticalidades da vida cristã e menos as estruturas da teologia ou da ordem eclesiástica.”[2].

     “O pietismo era o movimento de renovação que pretendia completar a Reforma protestante iniciada por Martinho Lutero. Seus principais pensadores e líderes eram clérigos luteranos que sinceramente admitiam os princípios protestantes fundamentais sola Scriptura, sola gratia et ftdes e o sacerdócio de todos os crentes.”[3]

     “A Igreja Luterana Alemã labutava, no fim do século XVII, sob dificuldades de muitos tipos. Sua obra era rigorosamente confinada pelos príncipes dos muitos Estados soberanos que havia na Alemanha. Muitos dos seus ministros pareciam interessar-se mais por disputas filosóficas e ostentação retórica do que pelo encorajamento das suas congregações. A Guerra dos Trinta Anos (1618-48), travada ostensivelmente por motivos religiosos, tinha criado uma desconfiança generalizada com relação à vida eclesiástica em geral.”[4].

     Portanto, o surgimento do Pietismo foi na Igreja Luterana Alemã.

2_ Com quem teve início o Pietismo

     “O mais notável teólogo do pietismo, e seu fundador dentro do luteranismo, foi Filipe Jacó Spener (1635-1705, a partir de 1691 decano em Berlim). Transmitiu o ponto de vista do pietismo de forma moderada. Procurou reter a base doutrinária ortodoxa sem alterações. Mas as questões de que tratava, e notadamente seu método de apresentação, manifestavam novo espírito teológico e nova maneira de pensar.”[5].

     “Philipp Jakob Spener, que nasceu em 1635, na Alsácia perto do rio Reno que separa a Alemanha da França. Quando menino, teve como madrinha uma mulher rica, poderosa e profundamente religiosa chamada condessa Ágata von Rappoltstein, que morava em um castelo perto da casa dele. Lá, o jovem leu e discutiu o Cristianismo verdadeiro e foi educado por sua mentora espiritual no tipo de cristianismo do coração. A condessa ajudou a conseguir e a pagar a educação teológica de Spener em Estrasburgo e Basiléia. Ele também passou algum tempo em Genebra onde foi influenciado pelo pregador reformado místico chamado João de Labadie (1610-1674), que exortava seus seguidores confiar na experiência interior mais do que nos sacramentos para garantir a salvação. Quando recebeu o primeiro pastorado em Frankfurt, na Alemanha, Spener já era um “cristão do coração” convicto, que acreditava piamente que a vida eclesiástica e a teologia de seu país precisavam de reforma.”[6]

     A obra que marcou o nascimento do Pietismo foi um livro de Spener, Pia Desideria. Em seu livro Pia desideria (1675) propôs várias recomendações para reformas destinadas a curar o estado de decadência em que a igreja se encontrava.

     “O pietismo luterano surgiu, em primeiro lugar, como movimento de reforma com finalidades práticas, mas, gradualmente, começou a ter efeito transformador na atividade teológica bem como na perspectiva geral. Spener publicou sua posição teológica especialmente na grande coleção intitulada Theologische Bedenken, l-IV (1700 e anos seguintes) em Die evangelische Glaubenslehre in einem Jahrgang der Predigten (1688).”[7].

3_ Quais os Principais Ensinos do Pietismo

     “Analisando a Pia Desideria de Spener - obra que marca “o nascimento do pietismo” - podemos destacar quatro características principais do Pietismo, a saber:

     1_ A Experiência Religiosa: A experiência religiosa assume um caráter preponderante na vida do crente;
     2_ Biblicismo: Seus padrões doutrinários emanam da Bíblia. Ainda que o Catecismo (Catecismo Menor de Lutero, 1529) deva ser ensinado às  crianças e aos adultos.
     3_ Perfeccionismo: Preocupação com o seu desenvolvimento espiritual, bem como na proclamação do Evangelho e na prática social de socorro aos necessitados.
    4_ Reforma na Igreja: Desejo de reformar a Igreja, combatendo a sua letargia espiritual, bem como as suas práticas consideradas mundanas. Esse programa pode ser assim dividido:

     a)_ Maior uso das Escrituras;
     b)_ Diligente exercício do sacerdócio espiritual;
     c)_ Ensinar que o saber não é suficiente; ele deve se manifestar em obediência a Deus;
     d)_ Espírito de amor cordial na controvérsia;
     e)_ Alimento devocional e preparação pastoral dos estudantes de teologia.”[8]

     Também podemos caracterizar o Pietismo da seguinte forma:

     “(1) seu caráter experiencial - os pietistas são pessoas em cujo coração 0 viver cristão é a preocupação fundamental; (2) seu enfoque bíblico — os pietistas são, parafraseando João Wesley, “0 povo de um só Livro” que tiram seus padrões e seus alvos das páginas das Escrituras; (3) sua inclinação perfeccionista — os pietistas são sérios com relação ao viver santo e dedicam 0 máximo esforço para seguir a lei de Deus, divulgar o evangelho e ajudar os necessitados; (4) seu interesse reformador - os pietistas usualmente se opõem àquilo que consideram frieza e esterilidade nas formas e práticas estabelecidas nas igrejas.”[9]

4_ Principais Teólogos do Pietismo

     O primeiro e principal nome foi o de Philipp Jakob Spener. Não trataremos sobre Spener aqui, pois já falamos sobre ele.

     “Johann Arndt. (1555-1621), figura pouco conhecida que escreveu um livro de grande influência que muitos historiadores consideram a “Bíblia” do pietismo: Quatro livros sobre o cristianismo verdadeiro (1610). Pouco se sabe da vida de Arndt, a não ser que foi ministro luterano muito respeitado mas um pouco controvertido , que tinha tendências místicas e que pastoreou igrejas em Eisleben (cidade natal de Lutero) e Celle na Alemanha. Entre 1606 e 1609, escreveu um livro devocional, que se tornou conhecido na Alemanha simplesmente com o Cristianismo verdadeiro.”[10].

     “Auguste Hennann Francke. Se Spener foi o patriarca do pietism o, Auguste Hermann Francke foi seu gênio organizador. Francke nasceu em 1663 na cidade universitária de Lübeck, em um lar profundamente influenciado pelo pietismo de Spener. Sua família também tinha fortes tradições intelectuais e vínculos com a ortodoxia luterana. Em 1684, começou seus estudos teológicos na Universidade de Leipzig, “o universalmente reconhecido baluarte da ortodoxia luterana”. Não demorou a assumir a posição de liderança no movimento pietista local chamado collegium philobiblicum ou “grupo de amantes da Bíblia”.”[11].

     “Nikolaus Ludwig von Zinzendorf. Uma das personagens mais incomparáveis de toda a história da teologia cristã é Nikolaus Ludwig von Zinzendorf ou conde Zinzendorf. Nasceu em 1700 em Dresden, onde a influência de Spener ainda era forte. Se Spener foi o patriarca do pietismo e Francke o gênio organizador, Zinzendorf foi o profeta excêntrico. Zinzendorf foi um garoto notável, criado pela avó pietista Henrietta von Gerstorff, que era profundamente envolvida no movimento pietista de Spener e Francke na Saxônia. Spener tornou-se padrinho de Zinzendorf. Desde pequeno, o conde assimilou a rica vida devocional da avó e teve suas próprias experiências espirituais profundas.



[1]  COSTA, Hermistein Maia Pereira da. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã. 2004. P.261.
[2]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova 2009. P.149.
[3]  OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora vida. 2001. P.485.
[4]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova. 2009. P.150.
[5]  HAGGLUND, Bengt. História da Teologia. 7Ed. Porto Alegre: Concórdia. 2003.  P. 281
[6]  OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora vida. 2001. P.490-491.
[7]  HAGGLUND, Bengt. História da Teologia. 7Ed. Porto Alegre: Concórdia. 2003.  P. 282.
[8]  COSTA, Hermistein Maia Pereira da. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã. 2004. P.262.
[9]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova. 2009. P.150-152.
[10]  OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora vida. 2001. P.490-491.
[11]  OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora vida. 2001. P.493.

28 de abril de 2017

18ª Torre de Oração: porque os celeiros de Deus estão abertos

18ª TORRE DE ORAÇÃO: PORQUE OS CELEIROS DE DEUS ESTÃO ABERTOS

Pr. Gilson Soares dos Santos

A Igreja Evangélica Congregacional de Areia – PB, realizará a 18ª Jornada de Oração Ininterrupta, que denominamos de Torre de Oração. São 24 horas, ininterruptas, de oração e adoração ao Senhor dos senhores.

A igreja se propõe a realizar esta atividade de oração, pelos menos, duas vezes por ano. Já estamos na 18ª Edição, que acontecerá neste sábado e domingo, 29 e 30 de Abril de 2017.

Para tanto, estou postando aqui algumas frases sobre oração, as quais nos levam a refletir sobre a necessidade e o valor da oração. As frases podem ser encontradas no Livro PÉROLAS PARA A VIDA, de John Blanchard, da Editora Vida.

FRASES SOBRE ORAÇÃO

“Nada está fora do alcance da oração, a não ser aquilo que está fora da vontade de Deus.” (J. Blanchard).

“Quando Deus pretende dispensar grandes misericórdias a seu povo, a primeira coisa que faz é inspirá-lo a orar.” (Matthew Henry).

“O verdadeiro segredo da oração é a oração em segredo.” (J. Blanchard).

“Deus ainda está no trono, nós ainda estamos a seus pés, e entre nós há apenas a distância de um joelho.” (Jim Elliot).

“A Bíblia é uma carta que Deus nos enviou; a oração é uma carta que enviamos a ele.” (Matthew Henry)

“Dizemos que o céu está muito longe. Mas ele está ao alcance da voz dos que lhe pertencem.” (D. L. Moody)

“Orações frias sempre se congelam antes de alcançar o céu.” (Thomas Brooks)

“Assim como o negócio dos alfaiates é fazer roupas, e o dos sapateiros é remendar sapatos, o negócio dos cristãos é orar.” (Martinho Lutero)

“Minha verdadeira estatura é a que possuo quando estou de joelhos.” (Stephen Olford).

“Nenhum homem é maior do que sua vida de oração.” (Leonard Ravenhill).

“As reuniões de oração são o marcapasso da igreja.” (C. H. Spurgeon)

“Em geral, jamais veremos muita melhoria em nossas igrejas, enquanto a reunião de oração não ocupar o lugar mais elevado na estima dos crentes.” (C. H. Spurgeon)


21 de abril de 2017

O Cristão e o "Jeitinho Brasileiro"


O CRISTÃO E O JEITINHO BRASILEIRO

Pr. Gilson Soares dos Santos

            Para introdução do assunto “o cristão e o jeitinho brasileiro”, lembramos que todo o material usado aqui foi retirado do Livro “Dando um jeito no jeitinho”, da autoria de Lourenço Stélio Rega, publicado pela Editora Mundo Cristão. Então vejamos:

3.1 – Definindo o que é jeitinho brasileiro

“É encontrar uma resposta, uma saída, para uma situação que em geral não se quer ou não se pode enfrentar; é se livrar de uma situação. É fazer com que as coisas andem de acordo com os desejos de alguém; é fechar os olhos para situações que podem prejudicar o indivíduo; é contornar as normas; é tirar vantagem de uma situação; enfim, é abrir caminho para que as coisas aconteçam da maneira como se gostaria”.[1].

            Stelio Rega continua mostrando alguns sinônimos para “jeitinho brasileiro”:

“Por baixo dos panos; apressar as coisas; contornar a situação; achar um “bode expiatório”; encontrar uma “brecha”; uma saída mais fácil, mais barata; acerto por fora; ajeitar, quebrar o galho,  “molhar a mão”, dar um ajuste, dar um empurrão ou impulso na situação; esquecer o assunto; etc.”[2].

            Quando falamos em jeitinho brasileiro, não devemos confundir com criatividade brasileira. O brasileiro é muito criativo. Dá sempre um jeito de “criar” alguma coisa para facilitar o trabalho, o estudo ou qualquer outra coisa. O jeitinho brasileiro que tratamos aqui é a “malandragem” para se dar bem, burlando leis, driblando a ética e fraudando para “facilitar as coisas”.

3.2 – Exemplos de “jeitinho brasileiro”

·         A famosa “gambiarra”, improviso, que motoristas que transportam passageiros fazem em seus carros para não colocar peça nova, colocando a vida de inocentes em risco.
·         Dar um jeitinho para não fazer os testes do DETRAN na hora de tirar a habilitação, “comprando a carteira”.
·         Na hora de vender qualquer coisa, mentir sobre o produto, “passando gato por lebre”.
·         “molhar a mão” do guarda rodoviário para não pagar a multa.
·         A famosa “mentira branca”. Quem perde prova escolar ou se atrasa pela segunda vez tem razão de sobra para “matar a vó”.
·         O jeitinho “com nota ou sem nota”. Que economiza “uma nota”.
·         As notas superfaturadas.
·         Viajar a serviço da empresa e colocar um valor de despesas de almoço e combustível maior do que aquilo que realmente foi gasto.
·         Forjar atestado médico para justificar a ausência no emprego.
·         Conseguir carteira de estudante para pagar meia entrada ou meia passagem, sem estar devidamente matriculado numa escola.

Como diz Lourenço Stélio Rega:

 “O jeito cria hábitos, influencia nossas decisões e acaba como que se tornando uma lei interior dentro de nós que quer governar as nossas escolhas. [...] o jeito é a síntese do caráter brasileiro e tornou-se uma estratégia que se espalhou pela sociedade e se fixou na vida do povo como alternativa ética diante do sistema de normas estabelecidos.”.[3]

3.3 – O jeitinho brasileiro à luz da Bíblia

            O que a Bíblia diz a respeito disso?

a)    A Bíblia condena qualquer tipo de mentira. O jeitinho brasileiro na maioria das vezes envolve mentira e engano. (Cl 3.9).
b)    A Bíblia condena a malícia. O jeitinho brasileiro é um jogo de malícias (At 13.10; Ef 4.22).
c)    A Bíblia condena “defraudar” os outros, que é a mesma coisa que fraudar, lesar dolosamente. (Mc 10.19; Lc 19.8; I Co 6.8; II Co 7.2; Tt 2.10).

3.4 – Dando um jeito no jeitinho

            Para que o cristão se livre do jeitinho brasileiro e sirva a Deus de maneira exemplar, dentro da Ética Cristã, é preciso observar o seguinte:

a)    Observe os princípios da Ética Cristã: Sobre os princípios da Ética Cristã já falamos n. Tais princípios nortearão a conduta do verdadeiro cristão nas mais diversas situações.

b)    Lembre-se que você também foi chamado para anunciar as boas novas do Evangelho: “O cristão brasileiro precisa desenvolver o espírito evangelístico, seja pela própria pregação do Evangelho, seja pela manifestação do seu testemunho pessoal. A ação redentora de Jesus na vida do cristão deve manifestar-se em sua relação aos dilemas éticos do jeito. [...] Os amigos do cristão brasileiro, seus colegas de trabalho e seus vizinhos deverão ver em sua vida prática e em sua maneira de reagir ao jeito e a manifestação da fé e da ação do Evangelho”.[4].

c)    Desenvolver uma cidadania exemplar responsável: “O cristão brasileiro precisa desempenhar o seu papel como cidadão responsável, não apenas obedecendo às autoridades, mas, numa espécie de revolução não-violenta e silenciosa, participando na sociedade de modo que as instituições desempenhem corretamente os seus papéis. [...] Na sociedade brasileira há instrumentos mediante os quais o cidadão pode contribuir para a melhoria das condições de vida. Os jornais e revistas de maior circulação no país, por exemplo, mantêm colunas para que os leitores se manifestem, opinando e reclamando. [...] O cristão brasileiro, como cidadão responsável que é, deve interceder por todos aqueles que estão investidos de autoridade e cooperar com eles no cumprimento da lei justa”.[5]

Concluindo, podemos perceber que o “jeitinho brasileiro” existe porque, para muitos, os interesses pessoais são tidos como mais importantes do que os interesses coletivos. O bem pessoal é considerado mais importante do que o bem da sociedade. Isto gera a falta de ética. Outra razão da existência do “jeitinho” é que muitas das pessoas que se declaram contra essa forma de malandragem, praticam sistematicamente, mantendo o discurso longe da prática. O cristão ético, que tem as Escrituras como a revelação de Deus para determinação dos padrões éticos, deve orar constantemente para viver o que está na Palavra, dando sempre um jeito nesse jeitinho brasileiro.



[1]  REGA, Lourenço Stelio. Dando um jeito no jeitinho: como ser ético sem deixar de ser brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão. 2000. p.48.
[2]  Idem.
[3]  Idem. p.56-57.
[4]  Idem. p.173-174.
[5]  Idem. p.174.

28 de março de 2017

Teologia da Glória e Teologia da Cruz

TEOLOGIA DA GLÓRIA E TEOLOGIA DA CRUZ

Pr. Gilson Soares dos Santos

     É de suma importância que estudemos este tema, Teologia da Glória e Teologia da Cruz, a fim de termos uma compreensão sobre algumas “teologias”. A seguir fiz uma compilação de textos que tratam da Teologia da Glória e da Teologia da Cruz.

     “No começo de 1518, na obra Controversia de Heidelberg, Lutero apresentou o que se tornou um programa inteiro para uma abordagem da teologia. Ele propôs esse programa colocando em oposição dois tipos de teologia: uma “teologia da glória” e uma “teologia da cruz”. Esses dois diferem em seu tema, pois um está preocupado primariamente com Deus em gloria, enquanto que o outro vê Deus como oculto em sofrimento.”[1]
     “Em abril de 1518, Martinho Lutero (1483-1546), em Heidelberg, contrapôs seus “Paradoxos” teológicos como “teologia da cruz” (theologia crucis) à “teologia da glória” (theologia gloriae), isto é, à teologia eclesial dominante. [...] No “Debate de Heidelberg”, travou-se a discussão da indulgência. Lutero contrastou a teologia da cruz com a teologia oficial, diante de uma igreja que se tornara segura e saciada. Como exemplo dessa realidade, para financiar o seu projeto mais extravagante, a basílica de São Pedro em Roma (incluindo a Capela Sistina), Leão X (1475-1521), eleito papa em 1513, resgatou a prática de cobrar indulgências, o que, de alguma maneira, precipitou a Reforma Protestante. Em Heidelberg, distinguindo entre o cristianismo evangélico bíblico e as corrupções medievais, Lutero entendeu que a igreja medieval seguia o caminho da glória ao invés do caminho da cruz. Para Lutero a cruz é a marca de toda a teologia. “No Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus.” Conhecer a Deus pela cruz é conhecer o nosso pecado e o amor redentor de Deus. Deus, na cruz, destrói todas as nossas idéias preconcebidas da glória divina. O perigo em potencial que a teologia da cruz vê na sua antítese é que a teologia da glória levará o homem a alguma forma de justiça pelas obras, à tendência de se fazer uma barganha com Deus com base em realizações pessoais. Por outro lado, a teologia da cruz repudia firmemente as realizações do próprio homem e deixa Deus fazer tudo para efetivar e preservar a sua salvação..”[2]

3.1_ A Teologia da Glória

     “Uma das muitas percepções teológicas de Martinho Lutero, a teologia da glória é a antítese da teologia da cruz. Lutero sentia tão forte convicção a respeito da distinção entre essas teologias que declarou de modo inequívoco que somente aqueles que sustentam e ensinam a teologia da cruz merecem ser chamados teólogos.”[3]
     “A teologia da glória chega ao conhecimento de Deus através das Suas obras. A teologia natural e a metafísica especulativa encaixam-se nessa categoria, bem como o conceito triunfalista expressado por alguns carismáticos dos nossos dias que entendem que Deus Se revela em intervenções dramáticas (visões, milagres, curas, etc.), e que a vida cristã é vivida numa constante “alta” espiritual. Os proponentes da teologia da cruz discordam ruidosamente desse ponto de vista. Deus quer ser conhecido e reverenciado com base em outro princípio. A teologia da glória entende que se conhece a Deus imediatamente por Suas expressões de poder, sabedoria e glória divinos; ao passo que a teologia da cruz O reconhece no próprio lugar onde Ele Se ocultou — na cruz, com os seus sofrimentos, todos eles considerados fraqueza e estultícia pela teologia da glória.”[4]
     “O perigo em potencial que a teologia da cruz vê na sua antítese é que a teologia da glória levará a alguma forma de justiça pelas obras moralistas, à propensão de se fazer uma barganha com Deus com base em realizações pessoais. A teologia da cruz repudia as realizações do próprio homem e deixa Deus fazer tudo para efetivar e preservar a Sua salvação. Essa teologia redirige a atenção do ativismo moralista para a receptividade genuína.”[5].

3.2_ Teologia da Cruz

     “A contribuição mais profunda de Martinho Lutero ao pensamento teológico. Cinco meses depois de ter pregado as noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg, Lutero formulou a theologia crucis. Essa teologia da cruz contrasta com a teologia da glória e é mais bem entendida em harmonia com o Deus Absconditus (“o Deus oculto") e o Deus Revelatus (“o Deus revelado”).[6]
     “Antes da queda (lapsus) o homem era capaz de conhecer a Deus de modo direto ou imediato. Era o Deus Revelatus que comungava com o homem no frescor do jardim do Éden. A consequência da queda do homem no pecado incluiu muito mais do que a morte pessoal e a deterioração moral; alterou, também, a capacidade de o homem conhecer o Criador e ter comunhão com Ele. O Deus revelado tornou-se o Deus oculto (Deus Absconditus). A única maneira pela qual a comunhão destruída podia ser restaurada era por meio da redenção. Em todo o período do AT, a despeito das intervenções milagrosas, das conquistas militares, dos templos magníficos e dos palácios primorosos, o único lugar onde Deus Se encontrava com o Seu povo era no propiciatório (“Ali virei a ti,” Ex 25.22), no lugar do sacrifício e da redenção. O lugar de encontro derradeiro de Deus foi desvendado na cruz de Cristo. Deus é conhecido e compreendido, não na força, mas na fraqueza, não numa demonstração impressionante de majestade e poder, mas na exibição de um amor que se dispõe a sofrer a fim de ganhar o homem de volta para si.”[7]
     “Infelizmente, o homem moderno resolveu conhecer Deus como o Revelado. O pagão vê o poder de Deus no cosmos criado, mas é levado de um grau de idolatria para outro. O fanático civilizado pensa que descobre Deus nas demonstrações de pompa e cerimônia e nas expressões de realização moral pessoal. Todos estão tragicamente enganados. Deus sempre é conhecido pelo homem através da cruz, e somente ali. Com profunda percepção, Lutero protestava: Solus praedica Sapientum crucis. “Prega esta única coisa, a sabedoria da cruz.”[8].

3.3_ Contrastando a Teologia da Glória e a Teologia da Cruz

     “A teologia da glória, portanto, é a teologia centralizada no homem e induz à superestimação do poder e capacidade naturais do homem. A teologia da cruz revela a verdadeira condição dos seres humanos, como pecadores desamparados, alienados de Deus, na mente e no coração, necessitando desesperadamente do plano de salvação criado por Deus: a cruz de Cristo. A teologia da glória sugere que os seres humanos podem se elevar a Deus por seus próprios esforços e conduz a projetos humanos de salvação própria e de especulação teológica. A teologia da cruz proclama que os seres humanos são totalmente dependentes e incapazes de descobrir qualquer coisa a respeito de Deus sem a ajuda da auto revelação do próprio Deus, e conduz ao discipulado marcado pelo sofrimento em nome de Deus e do próximo.”[9]
     “Quando Lutero olhava para a Igreja de Roma, via a manifestação concreta da teologia da glória. Queria rejeitar tudo isso sem destruir a cristandade. Podia aceitar o papa que liderasse a igreja com o servo sofredor, mas não o papa que era rico, poderoso e majestoso e reinava sobre todos.”[10].
     “Lutero também considerava exemplo da teologia da glória a crença no livre arbítrio humano no tocante à salvação. [...] Sua teologia da cruz também o levou à defesa fervorosa da doutrina da salvação — o monergismo da salvação. Embora Lutero tivesse muitos motivos para crer na predestinação, na verdade, sua crença nela se baseava na cruz e, só podia ser explicada por meio da cruz, e não pela argumentação teológica ou filosófica racional”.[11].
     “Em seu próprio tempo, Lutero via apenas duas opções para a teologia cristã: a versão da teologia da glória ou da teologia da cruz. Pelos seus cálculos, todos os seus oponentes — inclusive a Igreja de Roma e os humanistas, bem com o os “fanáticos” entre os protestantes — eram culpados de adotar a teologia da glória. Somente ele conseguia ver a centralidade da cruz e o paradoxo do poder e sofrimento de Deus no âmago do evangelho, conforme o entendia. Tudo na contribuição teológica de Lutero flui e reflui daí continuamente.”[12].
     “Uma teologia da glória denomina o mal, bem e o bem, mal. Uma teologia da cruz denomina a coisa como ela é efetivamente. Isso está claro: Aquele que não conhece a Cristo, não conhece o Deus oculto em sofrimento. Portanto, ele prefere obras ao invés de sofrimento, glória a cruz, força a fraqueza, sabedoria a tolice e, em geral, bem ao mal. Essas são as pessoas a quem o apóstolo chama de “inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18), pois eles odeiam a cruz e o sofrimento, e amam as obras e a sua glória. Assim, eles chamam o bem da cruz, mal e o mal de uma ação, bem. Deus pode ser encontrado apenas no sofrimento e na cruz, como já foi dito. Portanto, os amigos da cruz dizem que a cruz é boa e as obras são más, pois por meio da cruz as obras são destronadas e o velho Adão, que é especialmente edificado por obras, é crucificado. É impossível para uma pessoa não se vangloriar por suas boas obras a não ser que ela seja primeiro esvaziada e destruída por sofrimento e mal, até ela saber que é sem valor e que suas obras não são suas, mas de Deus.”[13].


[1]  GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Da Reforma Protestante ao Século 20. Vol. 3. São Paulo: Cultura Cristã. 2004. P. 38.
[2]  SANTOS, Gilson. Matinho Lutero: A Teologia da Cruz em Contraste com a Teologia da Glória. In: http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/172/Martinho_Lutero_A_Teologia_da_Cruz_em_Contraste_com_a_Teologia_da_Gloria. Acesso em 27/03/2017.
[3]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vida Nova: São Paulo. 2009. P.477
[4]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vida Nova: São Paulo. 2009. P.477
[5]  Ibidem.
[6]  Ibidem.  P.471
[7]  Ibidem.
[8]  Ibidem.
[9]  OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora vida. 2001. P.392.
[10]  Ibidem.
[11]  Ibidem. P.393.
[12]  Ibidem.
[13]  GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Da Reforma Protestante ao Século 20. Vol. 3. São Paulo: Cultura Cristã. 2004. PP. 40-41.