O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. É Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); É professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. É professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - PB. É Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia/PB.

5 de dezembro de 2016

Para o Dia da Bíblia: Como a Bíblia Foi Preparada


PARA O DIA DA BÍBLIA
COMO A BÍBLIA FOI PREPARADA

Pr. Gilson Soares dos Santos

Quando estudamos a Bíblia como um LIVRO, precisamos ter informações sobre seu contexto, suas divisões e materiais que foram usados em sua elaboração. Por isso, estudaremos sobre o processo de escrita da Bíblia.

I_ Materiais empregados para preparação da Bíblia

1.1_ Materiais para escrita

"A impossibilidade de recuperar muitos dos antigos manuscritos (um manuscrito é, neste sentido, uma cópia à mão das Escrituras) se deve basicamente aos materiais perecíveis empregados na escrita da Bíblia.”.

a)_ Papiro

“O papiro é uma planta aquática que cresce junto a rios, lagos e banhados, no Oriente Próximo, cuja entrecasca servia para escrever. Essa planta existe ainda hoje no Sudão, na Galiléia Superior e no vale de Sarom. As tiras extraídas do papiro eram coladas umas às outras até formarem um rolo de qualquer extensão. Este material gráfico primitivo é mencionado muitas vezes na Bíblia, exemplos: Êxodo 2.3; Jó 8.11; Isaías 18.2. Em certas versões da Bíblia, o papiro é mencionado como junco; de fato, é um tipo de junco de grandes proporções. De papiro, deriva-se a nossa palavra papel. Seu uso na escrita vem de 3.000 a.C.”.

“Esse junco crescia nos rios e lagos de pouca profundidade, existentes no Egito e na Síria. Grandes carregamentos de papiros eram despachados através do porto sírio de Byblos. Supõe-se que a palavra grega para livro (biblos) tenha origem no nome desse porto. A palavra portuguesa "papel" vem da palavra grega papyros, isto é, papiro.”.

“Na Antiguidade, essa planta crescia principalmente no Egito e nos limites norte do Jordão. [..] Seus longos caules triangulares, medindo de 1 a 3 metros, terminavam em flores com a forma de sino. Essa planta era usada para fazer diversos artigos, inclusive barcos (Ex 2.3, a cesta em que Moises foi colocado para flutuar; Isaias 18.2 faz referencia a grandes barcos usados para o transporte dos enviados a Cuxe). Por causa da escassez de madeira, os egípcios faziam botes ou jangadas de papiro. Eles amarravam os juncos e usavam piche para toma-los impermeáveis. Também eram usados para a caça e a pesca nos pântanos e nas balsas que atravessavam os canais”.

“O papel era feito depois que o cerne da planta era extraído e cortado em tiras finas, colocadas lado a lado. Em seguida, colocavam sobre elas outra serie de tiras formando ângulos retos que eram, então, coladas por meio de um adesivo e alguma forma de pressão. Como as partes laterais tinham tiras horizontais (o recto), geralmente elas eram as primeiras a receber a escrita; o lado avesso, com tiras verticais era o verso da escrita. Essas folhas, coladas uma a uma, formavam rolos de papiro de diferentes comprimentos. O padrão era de 20 folhas. O papiro egípcio “Harris I” (aprox. 1160 a.C.), que esta no Museu Britanico, é o mais longo que se conhece até o momento, com 44 metros de comprimento. A altura variava entre um mínimo de 18 centímetros (ou menos) ate um máximo de 47 centímetros. Geralmente, um rolo de papiro tinha o comprimento suficiente para que uma composição completa, como um livro da Bíblia pudesse ser escrito sobre ele”.

“Os mais antigos manuscritos foram escritos em papiro, e era difícil a preservação de qualquer um desses papiros, exceto em regiões secas, como as áreas desérticas do Egito, ou em cavernas semelhantes às de Qumran, onde foram achados os rolos do mar Morto.”

Segundo Kirsopp Lake, é possível concluir que o fato de não termos os manuscritos originais de papiro deve-se ao fato de que “os escribas geralmente destruíam seus exemplares após copiarem os Livros Sagrados”.

b)_ Pergaminho

“Essa palavra designa „peles preparadas de ovelhas, cabras, antílopes e outros animais‟. Essas peles eram „tosadas e raspadas‟ a fim de se obter um material mais durável para a escrita. „pergaminho' tem origem no nome da cidade de Pérgamo, na Ásia Menor, pois a produção desse material para escrita esteve, numa certa época, especialmente associada ao local".

“O uso de peles curtidas remonta ao terceiro milênio a.C. no Egito. Peles de cabras e ovelhas eram mais resistentes que o papiro, e talvez mais disponíveis para os israelitas. [..] O pergaminho, uma pele de animal melhor preparada e mais lisa, começou a substituir o couro por volta de 200 a.C.”

O papiro e o pergaminho foram os principais materiais usados para a preparação dos manuscritos bíblicos. Porém, outros materiais também são citados na escrita:

1.2_ Outros materiais usados na escrita

a)_ Velino

“Era o nome dado à pele de filhotes de diversos animais. Frequentemente o  Velino era atingido de púrpura. Alguns dos manuscritos que temos hoje em dia são velino cor de púrpura. Geralmente os caracteres escritos sobre o velino purpúreo eram prateados ou dourados.”

b)_ Ôstraco

“Fragmento de cerâmica não-esmaltada, bastante usado entre o povo em geral. Esses fragmentos têm sido encontrados em abundância no Egito e na Palestina (Jó 2:8).”

c)_ Pedras
“Que eram escritas com caneta de ferro”

d)_ Tabletes de Argila

“Inscritos com um instrumento pontiagudo e, então, secados a fim de se ter um registro definitivo (Jeremias 17:13; Ezequiel 4:1). Eram os mais baratos e um dos mais duráveis materiais para escrita.”

e)_ Tabletes de Cera

“Um estilete de metal era usado para escrever num pedaço plano de madeira recoberto com cera.”

1.3_ Instrumentos para a escrita

O Papiro, o Pergaminho, o Velino, o Ôstraco, Pedras, Tabletes de Argila e Tabletes de Cera era materiais que recebiam a escrita. Porém que tipos de instrumentos eram usados para escrever nesses materiais? Vejamos os instrumentos usados para a escrita:

a)_ Cinzel

“Um instrumento de ferro para entalhar as pedras.”

b)_ Estilete de metal

"Usava-se o estilete, um instrumento triangular com uma cabeça plana, para fazer marcas nos tabletes de argila e de cera".

c)_ Pena

“Era feita de "juncos (juncus maritimis). com 15 a 40 centímetros de comprimento, sendo que uma das extremidades era cortada de modo a produzir o formato de cinzel achatado, a fim de que se pudesse fazer traços grossos ou finos com as beiradas largas ou estreitas. A pena de junco esteve em uso na Mesopotâmia desde o início do primeiro milênio (a.C), sendo que é bem possível que tenha sido adotada em outros lugares, enquanto que a ideia de uma pena de ave parece ter vindo dos gregos, no século três a.C." (Jeremias 8:8). A pena era usada para escrever em velino, pergaminho e papiro. A tinta, geralmente era uma mistura de „carvão, cola e água‟.”

1.4_ As formas dos livros antigos

Como eram as formas dos livros antigos. Vejamos:

a)_ Rolos

“Eram folhas de papiro coladas uma ao lado da outra, formando longas tiras, e, então, enroladas num bastão. O tamanho do rolo era limitado por causa da dificuldade de seu uso. Geralmente se escrevia só de um lado. Um rolo escrito dos dois lados tem o nome de "opistógrafo" (Apocalipse 5:1). Conhecem-se alguns rolos com 43 metros de comprimento, mas em geral, os rolos tinham entre seis e dez metros.”

b)_ Códice ou Livro

“A fim de tornar a leitura mais fácil e menos desajeitada, as folhas de papiro foram montadas em forma de livro, sendo escritas em ambos os lados. Greenlee afirma que o cristianismo foi o principal motivo para o desenvolvimento de formato do códice, ou volume manuscrito antigo.”

1.5_ Tipos de escrita

Vejamos os tipos de escrita usadas para gravar nesses materiais:

a)_ Escrita Uncial (Maiúsculas)

“Letras maiúsculas deliberadas e cuidadosamente desenhadas, próprias para livros. Os códices Vaticano e Sinaítico são manuscritos unciais.”

b)_ Escrita Cursiva (Minúsculas)

‟Uma escrita de letras menores, cursivas... criadas com vistas à produção de livros‟. A mudança de unciais para minúsculas teve início no século nove.”

Observações:

·        “Os manuscritos gregos eram escritos sem quaisquer espaços entre as palavras. Até 900 AD. o hebraico era escrito sem vogais, quando os massoretas introduziram a vocalização.”
·        “Os escritos originais, autênticos, saídos da mão de um profeta ou apóstolo, ou de um secretário ou amanuense, sempre sob a direção do homem de Deus, eram chamados autógrafos. Esses não existem mais.”


FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

GEISLER, Norman. NIX, William. Introdução Bíblica: Como a Bíblia Chegou até Nós. São Paulo: Vida. 1997.

GILBERTO, Antonio. A Bíblia Através dos Séculos. 15Ed. Rio de Janeiro: CPAD. 2004.

PFEIFFER, Charles F. VOS, Howard F. REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD. 2007.

TOGNINI, Éneas. BENTES, João Marques. Janelas Para o Novo Testamento. São Paulo: Hagnos. 2009.
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28 de novembro de 2016

Por causa da morte de Russell Shedd, um pequeno estudo sobre a morte


POR CAUSA DA MORTE DE RUSSELL SHEDD, UM PEQUENO ESTUDO SOBRE A MORTE

Pr. Gilson Soares dos Santos

Partiu para estar com o Senhor, nosso amado irmão Russel Shedd, pastor e teólogo, que alcançou muitas vidas para o Reino de Deus, edificando-as por meio da Palavra Fiel e Verdadeira. Ele faleceu no dia 26 de Novembro de 2016.

O espaço aqui poderia ser usado para expor, de maneira fidedigna, a biografia do nosso amado irmão Shedd, no entanto, sei que o (a) leitor (a) poderá encontrar a biografia deste servo de Deus em muitas páginas na internet, inclusive na página da Editora Vida Nova. Sendo assim, quero aproveitar o momento para trazer um pequeno estudo sobre a morte

Boa edificação.

UM PEQUENO ESTUDO SOBRE A MORTE

Pr. Gilson Soares dos Santos

     “Talvez a questão mais preocupante para o homem seja o problema da morte. A realidade da morte é um fato tão desagradável, que todas as culturas têm procurado encontrar recursos, às vezes extremos, para ajudar o ser humano a sobreviver além-túmulo. Com os avanços da medicina moderna, a maioria das pessoas vive como se a morte fosse algo que só acontece com os outros. A verdade, entretanto, é que todos morrerão. No entanto, a grande questão é: o que acontece depois da morte?” (Ferreira e Myatt, 2008, p. 1046).

    As Escrituras Sagradas tratam da morte física, morte espiritual e morte eterna.

1 A Morte Física

     A morte física é a separação entre corpo e alma. Ela acontece quando a alma deixa o corpo, sendo considerado, então, o fim da existência de uma pessoa aqui na terra. A alma é quem dá vida ao corpo, quando a alma deixa o corpo, obviamente, o corpo morre e isto é chamado de morte física.

1.1 – A natureza da morte física

     Berkhof (2001, p. 617) nos traz a seguinte explicação sobre a natureza da morte física:

A Bíblia contém algumas indicações instrutivas quanto à natureza da morte física. Fala desta de várias maneiras. Em Mt 10.28 e Lc 12.4, fala-se dela como a morte do corpo, em distinção da morte da alma (psyche). Ali o corpo é considerado como um organismo vivo, e a psyche é evidentemente o pneuma do homem, o elemento espiritual que constitui o princípio da sua vida natural. Este conceito da morte natural também está subjacente à linguagem de Pedro em 1 Pe 3.14-18. Noutras passagens é descrita como o término da psyche, isto é, da vida animal, ou como a perda desta., Mt 2.20; Mc3.4; Lc 6.9; 14.26; Jo 12.25; 13.37, 38; At 15.26; 20.24, e outras passagens. E, finalmente, também é descrita como separação de corpo e alma, Ec 12.7 (comp. Gn 2.7); Tg 2.26, idéia também básica em passagens como Jo 19.30; At 7.59; Fp 1.23. Cf. também o emprego de êxodos (“partida”) em Lc 9.31; 2 Pe 1.15, 16.

Em vista disso tudo, pode-se dizer que, de acordo com a Escritura, a morte física é o término da vida física pela separação de corpo e alma. [...] a morte é um rompimento das relações naturais da vida.

    Franklin Ferreira e Alan Myatt (2008, p. 1069) assim descrevem a morte física:    

A morte física é a separação entre o corpo e o espírito, ou a separação entre a parte material e a parte imaterial. A morte física é o afastamento de aspecto de nossa humanidade que deveriam ser inseparáveis, o que também indica que a morte não foi o designio original de Deus para o homem, mas o resultado do pecado. 

     A definição de Norman Geisler (2010, p. 683) é semelhante:
   
A Bíblia descreve a morte como o momento em que a alma deixa o corpo. Por exemplo, Genesis 35.18 fala, a respeito de Raquel, que “saiu-se lhe a alma (porque morreu)”. Da mesma maneira, Tiago ensina: “o corpo sem o espirito esta morto” (2.26). Uma vez que a alma é o principio da vida que anima o corpo, resulta que, quando a alma deixa o corpo, o corpo morre.

     Por sua vez, Millard Erickson (1997, p. 484) dá a seguinte explicação sobre o que é a morte física:

Mas que é a morte? Como devemos defini-la? Várias passagens na Escritura falam da morte física, ou seja, do cessar da vida em nosso corpo físico. Em Mateus 10.28, por exemplo, Jesus contrasta a morte do corpo com a morte de ambos, o corpo e a alma: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” Várias outras passagens falam da perda da psique (“vida”). Um exemplo é João 13.37,38: “Replicou Pedro: Senhor, por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a própria vida. Respondeu Jesus: Darás a vida por mim?” Finalmente, a morte é mencionada em Eclesiastes 12.7 como uma separação do corpo e da alma (ou espírito): “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. No Novo Testamento, Tiago 2.26 também fala da morte como uma separação entre o corpo e o espírito. Estamos lidando nessas passagens com o cessar da vida em seu estado corpóreo com que estamos familiarizados. Mas esse não é o fim da existência. A vida e a morte, de acordo com a Escritura, não devem ser entendidas como existência e não existência, mas como dois estados diferentes de existência. A morte é simplesmente uma transição para um modo diferente de existência; não é, como costumamos imaginar, extinção.

     A Enciclopédia Temática da Bíblia (2008, p. 240-241) nos traz a lista de textos sobre a morte física (morte natural):

Por meio de Adão (Gn 3.19; I Co 15.21-22).
Consequência do pecado (Gn 2.17; Rm 5.12).
Cabe a todos (Ec 8.8; Hb 9.27).
Ordenada por Deus (Dt 32.39; Jó 14.5).
Encerra os projetos humanos (Ec 9.10)
Despoja dos bens terrenos (Jó 1.21; I Tm 6.7).
Iguala todas as pessoas (Jó 3.17-19)
Derrotada por Cristo (Rm 6.9; Ap 1.18)
Abolida por Cristo (II Tm 1.10)
Será totalmente destruída por Cristo (Os 13.14; I Co 15.26).
Cristo liberta do medo da morte (Hb 2.15)
Está às portas (Jó 14.1,2; Sl 39.4,5; 90.9; I Pe 1.24).
Preparemo-nos para ela (II Rs 20.1)
Oremos para estar preparados para ela (Sl 39.4,13; Sl 90.12).
Sua certeza, motivo de diligência (Ec 9.10; Jo 9.4).
Quando adiada, motivo de mais consagração (Sl 56.12,13; 118.17; Is 38.18,20).
Enoque e Elias foram isentos dela (Gn 5.24 com Hb 11.5; II Rs 2.11).
Todos se levantarão dela (At 24.15).
Ela não existe no céu (Lc 20.36; Ap 21.4).
Ilustra a mudança produzida pela conversão (Rm 6.2; Cl 2.20).

DESCRITA COMO

Um sono (Dt 31.16; Jo 11.11).
A destruição da casa terrena desse tabernáculo (II Co 5.1).
Abandono desse tabernáculo (II Pe 1.14).
Deus exigindo a alma (Lc 12.20).
Ir para o lugar sem volta (Jó 16.22).
Reunir-se ao nosso povo (Gn 49.33)
    
     A morte física, consequência do pecado, atinge a todos. Porém, veja o que o apóstolo Paulo diz em I Coríntios 15.51,52: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.”.

2 Morte Espiritual

     Além de tratar da morte física, a Bíblia trata também da morte espiritual. A morte espiritual é a separação entre o homem e Deus. Quando Adão e Eva comeram do fruto proibido, tornaram-se separados de Deus, isto quer dizer que morreram espiritualmente. Um homem, antes de sua regeneração, está morto espiritualmente. A Bíblia chama a isto de “morto em delitos e pecados”. O homem espiritualmente morto é incapaz de reagir a qualquer estímulo espiritual. Adão morreu espiritualmente no dia em que desobedeceu a Deus (Gn 2.17), todo ser humano nasce na mesma condição espiritual (Rm 5.12,14,17,21). Somente pelo novo nascimento é que o homem sai dessa condição de morte espiritual, pois o Espírito Santo levanta o pecador de seu estado de morte espiritual e o vivifica (Jo 5.21; Ef 2.1-5; Cl 2.13).

     Sobre a morte espiritual, vejamos o que afirma Ferreira e Myatt (2008, p. 1069):

Essa é a primeira forma porque foi a primeira a acontecer na história
da redenção e na vida de cada indivíduo. Em Genesis 2.17, Deus disse que “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Adão se tornou mortal quando comeu daquela árvore, e morreu espiritualmente naquele mesmo dia. [...] O pecado fez uma separação entre Deus e nossos primeiros pais, e esta separação é a essência da morte espiritual. [...] A regeneração é a cura para a morte espiritual.

     Erickson (1997, p. 484) nos diz o seguinte sobre a morte espiritual:

A morte espiritual é a separação entre a pessoa e Deus. [...] A Escritura refere-se claramente a um estado de morte espiritual, que é uma incapacidade de reagir a questões espirituais ou mesmo uma perda total da sensibilidade a tais estímulos. Isso é o que Paulo tem em mente em Efésios 2.1,2: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora”.

     Geisler (2010, p. 105-106) escreve:

A morte espiritual é a separação espiritual de Deus. Isaias declarou: “Mas as vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça” (Is 59.2). No instante em que Adão pecou, ele experimentou o isolamento espiritual de Deus; isto fica evidenciado pela vergonha que ele sentiu a ponto de se esconder do seu Criador. [...] Todo descendente de Adão — toda pessoa nascida de pais naturais desde o tempo da Queda — também está espiritualmente morto. [...] O novo nascimento do que Jesus falava é o ato da regeneração, pelo qual Deus transmite a vida espiritual para a alma do crente (1 Pe 1.23). Sem esta regeneração, todo ser humano está espiritualmente morto nos seus pecados.

     Berkhof (2001, p. 239) escreve o seguinte sobre a morte espiritual:

O pecado separa de Deus o homem, e isso quer dizer morte, pois é só na comunhão com o Deus vivo que o homem pode viver de verdade. No estado de morte, que resultou da entrada do pecado no mundo, levamos o fardo da culpa do pecado, culpa que só pode ser removida pela obra redentora de Jesus Cristo. Portanto, estamos obrigados a padecer os sofrimentos resultantes da transgressão da lei. O homem natural carrega para onde vai o senso da sujeição à punição. A consciência constantemente o faz lembrar-se da sua culpa, e com frequência o temor da punição enche o seu coração. A morte espiritual significa, não somente culpa, mas também corrupção. O pecado é sempre uma influencia corruptora na vida, e isso é parte da nossa morte. Por natureza somos, não somente injustos aos olhos de Deus, mas também impuros. Esta impureza se manifesta em nossos pensamentos, em nossas palavras e em nossas orações. É sempre ativa dentro de nós, agindo como uma fonte envenenada a poluir as correntes da vida. E se não fosse a influencia restringente da graça comum de Deus, tornaria a vida social inteiramente impossível.

     A Enciclopédia Temática da Bíblia (2008, p. 240) nos traz a lista de textos sobre a morte espiritual:

É alienação de Deus (Ef 4.18).
A mente carnal é morte (Rm 8.6).
Viver em erros e pecados é morte (Ef 2.1; Cl 2.13).
Ignorância espiritual é morte (Is 9.2; Mt 4.16; Lc 1.79; Ef 4.18).
Incredulidade é morte (Jo 3.36; I Jo 5.12).
Viver nos prazeres é morte (I Tm 5.6).
Hipocrisia é morte (Ap 3.1-2).
É consequência da queda (Rm 5.15).
É o estado natural de todos os homens (Rm 6.13; 8.6).
Seus frutos são obras mortas (Hb 6.1; 9.14).
Uma chamada para nos levantarmos dela (Ef 5.14).
Escape, só por meio de Cristo (Jo 5.24-25; Ef 2.5; I Jo 5.12).
Os santos são ressuscitados dela (Rm 6.13).
Amor aos irmãos, uma prova dessa ressurreição (I Jo 3.14).
Ilustrada (Ez 37.2-3; Lc 15.24).

     Compreendemos, então, que a morte espiritual é a separação entre a alma e Deus. Faz parte da pena pelo pecado. O ser humano sofreu a morte espiritual ao perder a comunhão com Deus.

3 Morte eterna

     A morte eterna, também chamada na Bíblia de segunda morte, é a separação eterna de Deus. É, na verdade, a condenação eterna. Todo aquele que não nasceu de novo, morrerá eternamente. Todo aquele que nasceu de novo não provará da morte eterna.

     Sobre a morte eterna Ferreira e Myatt (2008, p. 1069) escrevem:

A terceira forma da morte é a morte eterna, ou a segunda morte (Ap 2.11; 20.14), que será experimentada pelos que não creram no evangelho. Podemos, então, dizer que a regeneração é a cura para a morte espiritual, a ressurreição do corpo é a cura para a morte física, mas não haverá cura para a morte eterna.

     A explicação de Berkhof (2001, p. 241) sobre a morte eterna é a seguinte:

Esta pode ser considerada como a culminância e a consumação da morte espiritual. As restrições do presente desaparecem, e a corrupção do pecado tem a sua obra completa. O peso total da ira de Deus desce sobre os condenados, e isto significa morte no sentido mais terrível da palavra. A condenação eterna deles é levada a corresponder ao estado interno das suas ímpias almas. Há angústias de consciência e sofrimentos físicos. E “a fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos” (Ap 14.11).

     Geisler (2010, p. 105), por sua vez, dá a seguinte explicação sobre a morte eterna:

Se Adão não tivesse aceitado a provisão de salvação feita por Deus (Gn 3.15-24), ele teria, em algum momento, experimentado o que a Bíblia chama de “segunda morte,” que é a separação eterna de Deus. João escreveu sobre ela nas seguintes palavras: “E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Ap 20.14-15). Todos os que nascerem somente uma vez (fisicamente), haverão de morrer duas vezes (física e eternamente). Contudo, todos os que nascem duas vezes (física e espiritualmente) morrerão somente uma vez (fisicamente). Jesus disse: “Todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá” (Jo 11.26).

     Em sua Introdução à Teologia Sistemática, Millard Erickson (1997, p. 484) diz o seguinte sobre a morte eterna:

Quando o livro do Apocalipse refere-se à ”segunda morte” (21.8), tem-se em vista morte eterna. Essa segunda morte é algo separado da morte física normal e subsequente a ela. Sabemos por Apocalipse 20.6 que os crentes não provarão a segunda morte. “Bem aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos”. A segunda morte é um período infinito punição e separação da presença de Deus, a concretização do estado de perdição do indivíduo que estiver espiritualmente morto no momento da morte física.

     A Enciclopédia Temática da Bíblia (2008, p. 240) nos traz a lista de textos sobre a morte eterna:

Consequência necessária do pecado (Rm 6.16, 21; Rm 8.13; Tg 1.15).
É salário do pecado (Rm 6.23).
É a porção dos ímpios (Mt 25.41,46; Rm 1.32).
Seu caminho, descrito (Sl 9.17; Mt 7.13).
Auto retidão, resulta nela (Pv 14.12).
Só Deus pode aplica-la (Mt 10.28; Tg 4.12)

DESCRITA COMO

Afastamento da presença de Deus (II Ts 1.9).
Sociedade com o diabo, etc. (Mt 25.41).
Um lago de fogo (Ap 19.20; 21.8).
O verme que nunca morre (Mc 9.44).
Escuridão de fora (Mt 25.30).
Névoa de escuridão eterna (II Pe 2.17).
Indignação, ira, etc. (Rm 2.8-9).

É CHAMADA

Destruição (Rm 9.22; II Ts 1.9).
Perecimento (II Pe 2.12).
Ira vindoura (I Ts 1.10).
Segunda morte (Ap 2.11).
Ressurreição para condenação (Jo 5.29).
Ressurreição para vergonha (Dn 12.2).
Condenação do inferno (Mt 23.33).
Castigo eterno (Mt 25.46).
Será infligida por Cristo (Mt 25.31,41; II Ts 1.7-8).
Cristo, o único meio de escaparmos dela (Jo 3.16; 8.51; At 4.12).
Os santos não a provarão (Ap 2.11; 20.6)

     Diante do exposto é possível compreender que todo aquele que partir para a eternidade sem a salvação, morrerá eternamente.


BIBLIOGRAFIA

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Cultura Cristã. 2001.

Enciclopédia Temática da Bíblia. Trad. Eulália A. P. Kregness. São Paulo: Shedd Publicações. 2008.

ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2008.

GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD. 2010.


25 de novembro de 2016

A Ética Cristã e os Dez Mandamentos

VI – A ÉTICA CRISTÃ E OS DEZ MANDAMENTOS

Pr. Gilson Soares dos Santos

            Qual a relevância dos Dez Mandamentos para a Ética Cristã? Por um lado existem os legalistas que afirmam que é preciso cumprir a lei para salvar-se. No outro extremo existem os antinomistas que afirmam que o evangelho se contrapõe à lei, tornando os Dez Mandamentos desnecessários para o cristão. Na continuidade do nosso curso, veremos agora a importância dos Dez Mandamentos para a Ética Cristã.

“Calvino foi quem iniciou um estilo quase completamente novo do uso sistemático dos dez mandamentos como base ética. Em suas Institutas, Il.vii 8, ele faz uma exposição da lei moral, para o que utiliza, aproximadamente, cinquenta páginas. Sua defesa, numa longa exposição, é de que “os mandamentos e as proibições sempre deixam implícito mais do que as palavras expressam ... Em todos os mandamentos ... expressa-se uma parte e não o todo... A melhor regra, então, é que a exposição seja direcionada ao desígnio do preceito... como o final do quinto mandamento é que honra seja dada a aqueles a quem Deus determina a honra...” (Il.vii.8)”[1].

            Para um comentário sobre os Dez Mandamentos e sua importância na Ética dos Cristãos, evocaremos o conteúdo que encontra-se na “Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã”, editada por Walter Elwell:

1 – A proibição de outros deuses além do Senhor (Ex 20.3; Dt 5.7)

3 Não terás outros deuses diante de mim. (Ex 20.3).

7 Não terás outros deuses diante de mim. (Dt 5.7)

“O primeiro Mandamento está na forma negativa e proíbe expressamente os israelitas de se entregarem à adoração de deidades estranhas. A relevância do mandamento acha-se na natureza da Aliança. A essência da Aliança era um relacionamento, e a essência daquele relacionamento visava a fidelidade. A fidelidade de Deus ao Seu povo já tinha sido demonstrada no Êxodo, conforme é indicada no prefácio aos mandamentos. Por Sua vez, Deus requeria, mais do que qualquer outra coisa, a fidelidade no relacionamento entre Seu povo e Ele. Assim, embora o Mandamento seja declarado de modo negativo, está repleto de implicações positivas. E a sua posição como o primeiro entre os dez é relevante, porque este mandamento estabelece um princípio notavelmente proeminente nos mandamentos sociais. A relevância contemporânea do mandamento pode ser vista, por- tanto, no contexto da fidelidade no relacionamento. No âmago da vida humana, deve haver um relacionamento com Deus. Qualquer coisa na vida que desfaça o relacionamento primário quebra o mandamento. "Deuses" estranhos, portanto, são pessoas, ou até mesmo objetos, que procuram desfazer a primazia do relacionamento com Deus.”[2]
                       
2 – A proibição das imagens (Ex 20.4-6; Dt 5.8-10)

4 Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5 Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem
6 e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. (Ex 20.4-6)

8 Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra;
9 não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem,
10 e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. (Dt 5.8-10)


“A possibilidade de se adorar a deuses diferentes do Senhor já foi eliminada no primeiro mandamento. O segundo mandamento proíbe os israelitas de construírem imagens do Senhor. Fazer uma imagem de Deus, nos contornos ou formas de qualquer coisa neste mundo, é reduzir o Criador a algo menor que Sua criação, e adorar tal imagem seria uma coisa errada. A tentação para Israel adorar a Deus na forma de uma imagem deve ter sido enorme, pois imagens e ídolos ocorriam em todas as religiões do antigo Oriente Próximo. Mas o Deus de Israel era um Ser transcendente e infinito, e não podia ser reduzido às limitações de uma imagem ou forma dentro da criação. Qualquer redução de Deus deste tipo seria um mal entendido tão radical que o "Deus" adorado já não seria o Deus do universo. No mundo moderno, a forma desta tentação se transformou. Poucas pessoas são tentadas a tomar ferramentas e talhar em madeira uma imagem de Deus, mas o mandamento continua sendo aplicável. A pessoa pode construir com palavras uma imagem de Deus. Se usarmos palavras a respeito de Deus e dissermos: "Deus é exatamente assim, nem mais nem menos", e se elaborarmos os pormenores minuciosos do nosso modo de entender Deus, logo correremos o perigo de criar uma imagem de Deus não menos fixa nem rígida do que a imagem de madeira ou de pedra. Logicamente, não somos proibidos de empregar palavras a respeito de Deus; caso contrário, a religião tornar-se-ia impossível. Mas se as palavras se solidificarem como o cimento, e o nosso modo de compreender Deus tornar-se rígido com tais palavras, estaremos construindo uma imagem. Adorar a Deus na forma de uma imagem em palavras é quebrar o mandamento. Deus é transcendente e infinito, e sempre maior do que quaisquer palavras que uma criatura possa empregar a Seu respeito. O segundo mandamento, portanto, mantém a grandeza e mistério ulteriores de Deus.”[3]

3 – A proibição do emprego impróprio do nome de Deus (Ex 20.7; Dt 5.11)

7 Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão (Ex 20.7)

11 Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. (Dt 5.11).

“Há um modo popular de entender que o terceiro mandamento proíbe linguagem profana ou blasfêmia; ele, no entanto, ocupa-se com uma questão mais grave - o uso do nome de Deus. Deus concedera a Israel um privilégio extraordinário; Ele lhe revelara o Seu nome pessoal. O nome é representado em hebraico por quatro letras: yhwh, traduzidas em nossas Bíblias como "Senhor", "Javé", ou "Jeová". O conhecimento do nome divino era um privilégio, porque significava que Israel não adorava uma deidade anônima e distante, mas um Ser cujo nome pessoal era conhecido. Mas o privilégio era acompanhado por um perigo, a saber: que o conhecimento do nome pessoal de Deus podia causar abusos. Nas religiões do antigo Oriente Próximo, a magia era uma prática comum, que envolvia o uso do nome de um deus, e que, segundo se acreditava, controlava o poder do deus, em certos tipos de atividades que visavam aproveitar o poder divino para os propósitos humanos. Assim, o tipo de atividade proibida pelo terceiro mandamento é a magia, a tentativa de se controlar o poder de Deus por meio do Seu nome, visando um propósito pessoal e indigno. Deus pode dar, mas não deve ser manipulado nem controlado. Dentro do cristianismo, o nome de Deus é igualmente importante. Em nome de Deus, por exemplo, é outorgado o privilégio de acesso a Deus em oração. O abuso do privilégio da oração, envolvendo a invocação do nome de Deus visando-se algum propósito egoísta ou indigno, não é melhor do que a magia do mundo antigo. Nos dois casos, abusa-se do nome de Deus, e o terceiro mandamento é quebrado. O terceiro mandamento é uma lembrança positiva do privilégio enorme que nos é dado no conhecimento do nome de Deus; é um privilégio que não deve ser tratado levianamente nem ser causa de abusos.[4]

4 – A observância do sábado (Ex 20.8-11; Dt 5.12-15)

8 Lembra-te do dia de sábado, para o santificar.
9 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.
10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro;
11 porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou. (Ex 20.8-11)

12 Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o SENHOR, teu Deus.
13 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.
14 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu;
15 porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado. (Dt 5.12-15).

“Este mandamento não tem nenhum paralelo nas religiões do antigo Oriente Próximo; é, também, o primeiro dos mandamentos a ser expressado numa forma positiva. Embora a maior parte da vida em Israel fosse caracterizada pelo trabalho, o sétimo dia devia ser consagrado. O trabalho devia cessar e o dia devia ser mantido santo. A santidade do dia relaciona-se com a razão do seu estabelecimento; são oferecidas duas razões e, embora pareçam diferentes à primeira vista, há um tema em comum que as vincula. Na primeira versão (Ex 20.11), 0 sábado deve ser observado em comemoração da criação; Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Na segunda versão (Dt 5.15), o sábado deve ser observado em comemoração do Êxodo do Egito. O tema que liga as duas versões é a criação; Deus criou não somente o mundo, como também "criou" Seu povo, Israel, ao redimi-lo da escravidão no Egito. Assim, os hebreus deviam refletir sobre a criação; ao assim agirem, estavam refletindo sobre o significado da sua existência. Para a maior parte da cristandade, o conceito do "sábado" [literalmente, "dia do descanso"] foi mudado do sétimo dia da semana para o primeiro, que é o domingo. A mudança relaciona-se com uma alteração no pensamento cristão, identificada na ressurreição de Jesus Cristo, no domingo. A mudança é apropriada, porque os cristãos agora refletem em cada domingo, ou "dia de descanso", num terceiro ato da criação divina, a "nova criação" estabelecida na ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.”[5]

5 – A honra devida aos pais (Ex 20.12; Dt 5.16)

12 Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá. (Ex 5.12).

16 Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá. (Dt 5.16)

“O quinto mandamento forma uma ponte entre os quatro primeiros, que dizem respeito basicamente a Deus, e os cinco últimos, que se referem principalmente aos relacionamentos entre os seres humanos. Numa primeira leitura, parece ocupar-se exclusivamente com os relacionamentos na família; os filhos devem honrar aos pais. Embora o mandamento estabeleça um princípio de honra ou respeito nos relacionamentos familiares, provavelmente refere-se também, a uma preocupação específica. Era a responsabilidade dos pais instruírem seus filhos na fé da Aliança (Dt 6.7), de modo que a religião pudesse ser passada de uma geração para outra. Mas a instrução na fé exigia uma atitude de honra e respeito daqueles que estavam sendo instruídos. O quinto mandamento, portanto, não se ocupa somente com a harmonia na família, mas também com a transmissão da fé em Deus no decurso das gerações subsequentes. No caso do quinto mandamento, há pouca necessidade de se transformar o seu significado em relevância contemporânea. Porém, num século em que tão grande parte da educação é efetuada além dos limites da unidade familiar, o mandamento serve como lembrete solene, não somente da necessidade de uma vida harmoniosa, mas também das responsabilidades no tocante à educação religiosa que recai tanto sobre os pais quanto sobre os filhos.”[6]

6 – A proibição do assassínio (Ex 20.13; Dt 5.17)

13 Não matarás. (Ex 20.13).

17 Não matarás. (Dt 5.17).

“A redação deste mandamento simplesmente proíbe o "matar"; o significado da palavra subentende a proibição do assassínio. A palavra usada no mandamento não se relaciona basicamente com o matar na guerra ou com a pena capital; estas duas questões são tratadas em outras partes da lei mosaica. A palavra podia ser usada para designar tanto o assassínio quanto o homicídio. Visto que o homicídio não culposo envolve morte por acidente, não pode ser razoavelmente proibido; ele, também, é tratado em outro tipo de legislação (Dt 19.1-13). Sendo assim, o sexto mandamento proíbe o assassinato, tirar a vida de outra pessoa por vantagens pessoais e egoístas. Colocado em termos positivos, este mandamento preserva para cada membro da comunidade da Aliança o direito de viver. No mundo moderno, um estatuto semelhante, que proíbe o assassínio, existe em quase todos os códigos legais; tornou-se parte da lei nacional, mais do que uma lei puramente religiosa ou moral. Jesus, no entanto, indicou o significado mais profundo implícito no mandamento; não é somente o ato, mas também o sentimento que está por trás do ato que é mau (Mt 5.21 -22).”[7].

7 – A proibição do adultério (Ex 20.14; Dt 5.18)

14 Não adulterarás. (Ex 20.14).

18 Não adulterarás. (Dt 5.18)

“O ato de adultério é fundamentalmente um ato de infidelidade. Uma pessoa, ou duas, num ato de adultério, está sendo infiel a outras pessoas. É por esta razão que o adultério é incluído nos Dez Mandamentos, ao passo que outros pecados ou crimes pertencentes ao sexo não o são. De todos os crimes desta natureza, o pior refere-se à infidelidade. Assim, o sétimo mandamento é o paralelo social do primeiro. Assim como o primeiro mandamento requer a fidelidade total no relacionamento com o Deus único, assim também este requer um relacionamento semelhante de fidelidade dentro da aliança do casamento. A relevância é aparente, mas, neste caso também, Jesus indica as implicações do mandamento para a vida mental (Mt 5.27-28).”[8]

8 – A proibição do furto (Ex 20.15; Dt 5.19)

15 Não furtarás.

19 Não furtarás.

“Este mandamento estabelece um princípio dentro da comunidade da aliança no que diz respeito às posses e aos bens; uma pessoa tinha direito a certas coisas, que não podia ser violado por um concidadão para a vantagem pessoal deste. Mas embora o mandamento diga respeito aos bens, sua preocupação mais fundamental é a liberdade humana. A pior forma do furto é o "roubo de homens" (algo equivalente ao sequestro moderno), isto é, tomar uma pessoa (presumivelmente à força) e vendê-la para a escravidão. O crime e a lei com ele relacionados são declarados mais plenamente em Dt 24.7. O mandamento, portanto, não somente se ocupa com a preservação dos bens particulares, mas, de modo mais fundamental, com a preservação da liberdade humana e de coisas tais como a escravidão e o exílio. Proíbe a pessoa de manipular ou explorar a vida de terceiros para seu próprio bem. Assim como o sexto mandamento proíbe o assassínio, assim também o oitavo proíbe aquilo que poderia ser chamado assassínio social, podar a liberdade de vida de um homem ou uma mulher dentro da comunidade do povo de Deus.”[9]

9 – A proibição do falso testemunho (Ex 20.16; Dt 5.20)

16 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. (Ex 20.16)

20 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. (Dt 5.20)

“Este mandamento não é uma proibição geral contra mentiras ou inverdades. A redação do mandamento original coloca־ o firmemente no contexto do sistema legal de Israel. Proíbe o perjúrio, o falso testemunho dentro dos processos do tribunal. Assim, estabelece um principio de veracidade e tem suas implicações no tocante a falsas declarações em qualquer contexto. Dentro de qualquer nação, é essencial que os tribunais de justiça operem com base na verdade das informações; se a lei não for baseada na veracidade e na justiça, ficam subvertidos os próprios alicerces da vida e da liberdade. Se o testemunho em juízo for veraz, não poderá haver perversão da justiça; se for falso, perdem-se as liberdades humanas mais fundamentais. Deste modo, o mandamento procurava preservar a integridade do sistema jurídico de Israel e, ao mesmo tempo, guardava contra a invasão das liberdades pessoais. O princípio é mantido na maioria dos sistemas jurídicos modernos; evidencia-se, por exemplo, no juramento prestado antes de alguém dar testemunho num tribunal. Mas, em última análise, o mandamento indica a natureza essencial da veracidade em todos os relacionamentos entre os seres humanos.”[10]

10 – A proibição da cobiça (Ex 20.17; Dt 5.21)

17 Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Ex 20.17)

21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. (Dt 5.21)

“O décimo mandamento é curioso no seu contexto inicial. Proíbe o ato de cobiçar ou desejar pessoas ou coisas que pertençam ao próximo (a outro israelita). É curioso achar semelhante mandamento num código de direito penal. Os nove primeiros mandamentos proibiam atos, e um ato pode ser seguido por processo e condenação nos tribunais (se o ato for detectado). O décimo mandamento, em contraste, proíbe desejos ou sentimentos de cobiça. Segundo a lei humana, não é possível processar alguém com base num desejo (seria impossível provar!) O direito hebraico, no entanto, era mais do que um sistema humano. Havia, sem dúvida alguma, tribunais, policiais, juízes e advogados. Mas também havia um Juiz Supremo, que é Deus. O crime envolvido no décimo mandamento não podia ser levado a julgamento dentro das limitações do sistema hebraico; Deus, porém, conhecia o caso. O gênio do mandamento acha-se na sua natureza terapêutica. Não basta simplesmente lidar com um crime uma vez cometido; a lei deve também procurar atacar as raízes do crime. A raiz de quase todo mal e crime acha-se dentro do eu; acha-se nos desejos do indivíduo. Assim, são proibidos os desejos malignos; se o décimo mandamento for plena e profundamente compreendido, o significado dos nove primeiros será muito melhor entendido. Se desejos cobiçosos forem paulatinamente eliminados, então aquele desejo natural que está arraigado dentro de cada pessoa poderá ser dirigido cada vez mais para Deus.”[11]


No Livro “Ética Cristã Hoje: Vivendo um Cristianismo Coerente em uma Sociedade em Mudança Rápida”, de Alan Pallister, publicado no Brasil pela SHEDD Publicações, o autor considera a relevância da lei de Deus, particularmente dos Dez Mandamentos, para uma ética coerente, buscando fundamentar os princípios éticos nos Dez Mandamentos.




[1]  HENRY, Carl. (org.) Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã. 2007. p.231.
[2]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova. Volume Único. 2009. p.454.
[3]  Ibidem. p.454-455.
[4]  Ibidem. p.455
[5]  Ibidem. p.455
[6]  Ibidem. p.455-456.
[7]  Ibidem p.456.
[8]  Ibidem.
[9]  Ibidem.
[10]   Ibidem.  p.457.
[11]   Ibidem.