O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. É Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); É professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. É professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - PB. É Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia/PB.

31 de julho de 2016

Um Pouco da História da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil


UM POUCO DA HISTÓRIA DA ALIANÇA DAS IGREJAS EVANGÉLICAS CONGREGACIONAIS DO BRASIL

Pr. Gilson Soares dos Santos

O congregacionalismo no Brasil fará no dia 19 de Agosto, deste ano de 2016, 161 anos de existência. Chegamos aqui em 1855 e, pela graça de Deus, os cristãos congregacionais, herdeiros da Reforma Protestante, têm pregado o Evangelho com seriedade e dedicação em nossa pátria.

Um dos segmentos do congregacionalismo no Brasil é a Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB), que este ano completa 49 anos de atividades. Estaremos comemorando, em nosso distrito, 2º Distrito da 1ª Região Administrativa, os 161 anos do congregacionalismo e os 49 anos da Aliança, conforme consta no cartaz acima.

Para tanto, estou publicando um pouco da história da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB), denominação na qual sou pastor desde Julho de 1995. O conteúdo a seguir pode ser encontrado no site da Aliança, conforme consta na fonte, no final da postagem.

Parabéns congregacionais, parabéns Aliança Congregacional, Deus abençoe a todos!

___________________________________________________

ALIANÇA DAS IGREJAS EVANGÉLICAS CONGREGACIONAIS DO BRASIL

Em 1959, o ano está no começo. A Igreja Evangélica Congregacional em João Pessoa/PB está em festa, é uma comemoração das senhoras, e o Pr. Dorival Rodrigues Bewke é o preletor do evento. As pregações causam um grande despertar espiritual, muitas decisões acontecem e a experiência do batismo com o Espírito Santo entendida também como um evento após a conversão é vivenciada. A partir daí, uma nova atmosfera espiritual toma conta da igreja.

Com a realização do 1° Encontro Nacional de Renovação Espiritual,em Belo Horizonte/MG, que teve a participação do pastor da igreja, Jônatas Ferreira Catão, a Igreja Congregacional em João Pessoa é destaque no cenário de avivamento espiritual. Pouco depois, se juntam a esta visão a Igreja Congregacional em Campina Grande/PB (Pr. Raul de Souza Costa), 2ª Igreja Congregacional em Campina Grande/PB (Pr. João Barbosa de Lucena), Igreja Congregacional de Patos/PB (Pr. José Quaresma de Mendonça), Igreja Congregacionalem Alagoa Grande/PB (dirigida à época pelo presbítero Dr. Guimarin Toledo Sales), Igreja Congregacional em Totó, Recife/PE (Pr. Isaías Correia dos Santos), Igreja Congregacional em Casa Amarela, Recife/PE (Pr. Roberto Augusto de Souza), igreja Congregacional no Pina, Recife/PE (Pr. Moisés Francisco de Melo) e uma congregação em Caruaru/PE, dirigida à época pelo Pr. Jônatas Catão.

Corre o ano de 1967, uma onda de renovação espiritual se alastra pelas igrejas evangélicas históricas do país. No mês de junho, na cidade de Patos/PB, acontecem os congressos femininos e de mocidade congregacionais, estes eventos foram de muito impacto e tiveram muita repercussão. A liderança da denominação no país (na época o órgão se chamava União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil – UIECB e o seu Presidente era o Reverendo Inácio Cavalcanti Ribeiro, pastor da III Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande), não concordando com os rumos que essas igrejas estavam tomando, convocou um Concílio Geral Extraordinário para os dias 20 e 21 de julho, na Igreja Congregacional em Feira de Santana/BA.

Não sabemos se por engano, mas na emissão dos Ofícios de Convocação do Concílio houve um direcionamento desagradável, todas as igrejas que não aceitavam o Movimento de Renovação Espiritual receberam ofício para um Concílio nos dias 20 e 21 de julho e as igrejas que abraçavam a Renovação Espiritual, receberam ofícios para um Concílio nos dias 21 e 22, no mesmo local e com a mesma destinação. Quando os representantes destas igrejas chegaram ao Concílio ele já estava instalado, em pleno funcionamento, com Comissões instaladas e recebendo documentos e emitindo pareceres. Logo na primeira Assembleia foi lido um desses documentos e com parecer formalizado, recomendando a exclusão de Igrejas (Igreja Evangélica Congregacional em João Pessoa, Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande, II Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande, Igreja Evangélica Congregacional de Patos, Igreja Evangélica Congregacional em Tegipió, Igreja Evangélica Congregacional de Casa Amarela e Igreja Evangélica Congregacional do Pina) e a eliminação dos pastores destas igrejas (Jônatas Ferreira Catão, Raul de Souza Costa, João Barbosa de Lucena, José Quaresma de Mendonça, Isaias Correia dos Santos, Roberto Augusto de Sousa e Moisés Francisco de Melo). O Moderador dos trabalhos, Reverendo Inácio Cavalcanti Ribeiro, numa atitude anticristã e anticongregacional, cassou o direito de defesa das igrejas acusadas de heréticas e os seus pastores de desordeiros e falsos profetas, porque renovados; e, num ambiente de muito tumulto, pôs o assunto em votação sem qualquer discussão.

Assim, de forma abrupta, fomos expulsos naquele Concílio da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. Sequer tivemos direito a hospedagem no Concílio e na mesma manhã que ali chegamos tivemos de voltar às nossas igrejas, tristes pelas falta de comunhão com aqueles irmãos, entretanto, fortalecidos pelas promessas de Deus para a continuação do trabalho que estávamos desenvolvendo.

Ainda em Feira de Santana, na saída da cidade, quando paramos para o almoço, o Pr. Jônatas Ferreira Catão sugeriu a possibilidade de reunir os excluídos em um grupo com características denominacionais e, como líder do grupo, dividiu tarefas para contatos com igrejas e pastores visando essa possibilidade. Na viagem de volta, a nossa Caravana (Jônatas Ferreira Catão, José Quaresma de Mendonça, Euclides Cavalcanti Ribeiro, José Severino de Araújo, Eloy Eneas de Souza, Calistrato Hypólito Soares e Osmar de Lima Carneiro) visitou o Pastor Servílio Benício de Sales, na Igreja Evangélica Congregacional em Aracajú/SE, obtendo a sua adesão à criação do novo órgão denominacional.

Igrejas foram visitadas, pastores contatados e convocado um Concílio para a fundação do novo órgão denominacional, com instalação no dia 13/08/1967, no Templo da Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande.

Em todas as negociações prévias, visitas a pastores e sugestões de direção, o trabalho do Pr. Jônatas Ferreira Catão foi de um valor inestimável, ele foi um grande líder.

No dia 13 de agosto de 1967, num domingo, as delegações das igrejas foram recebidas na Igreja Evangélica Congregacional de Campina Grande, muitos líderes acorreram ao evento. E no dia 14/08/1967 foi aberta a primeira reunião administrativa onde foi fundada a ALIANÇA DE IGREJAS EVANGÉLICAS CONGREGACIONAIS DO BRASIL e eleita por aclamação a sua primeira diretoria:

Pres. Raul de Souza Costa
1° Vice-Pres. Jônatas Ferreira Catão
2º Vice-Pres. Geraldo Batista dos Santos
1º Sec. Presb. Euclides Cavalcanti Ribeiro
2º Sec. Presb. Euclides Gomes da Costa
1º Tes. Osmar de Lima Carneiro
2º Tes. Presb. Caitano Antônio da Silva.

Os presentes encerram os trabalhos de mãos dadas felizes e realizados. No dia 19 de agosto de 1967, em grande festa em Caruaru/PE, é instalada a Igreja Evangélica Congregacional naquela cidade, e é empossado como seu pastor visitante Jônatas Ferreira Catão. Essa foi a primeira igreja emancipada da recém-formada ALIANÇA, e daí por diante o evangelho do reino foi sendo espalhado por todo Brasil.

Hoje, temos uma denominação forte e vibrante com 91 igrejas, 26 campos missionários, muitos pastores e milhares de membros com muitas expectativas de crescimento em todas as áreas, sem fugir da ortodoxia evangélica e entrar nos modismos atuais.

Agora, mais do que nunca, as palavras do hino que foi um marco naquela época se fazem valer:

“Obra Santa do Espírito
Esta causa é do Senhor.
Como um vento impetuoso
Como fogo abrasador
Estamos sobre terra santa
Reverente e muito amor
Esta hora é decisiva
Vigilante e de temor.
Ninguém detém! É obra santa”.

*Muitas das informações do texto seguem testemunho do Presb. Osmar de Lima Carneiro, participante ativo dos eventos.

17 de julho de 2016

Princípios da Ética Cristã

IV – PRINCÍPIOS DA ÉTICA CRISTÃ

Pr. Gilson Soares dos Santos

      Antes de prosseguirmos com nosso curso é importante aprendermos alguns princípios da Ética Cristã.

4.1 – O Princípio da fé

     Comecemos com o que o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos 14.22,23, conforme encontramos na Bíblia, na versão de Almeida Revista e Atualizada (ARA):

22 A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova.
23 Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado. (Romanos 14.22,23)

     O texto nos mostra a bem aventurança do crente que não se condena naquilo que aprova, destacando que aquele que tem dúvidas naquilo que aprova, não age com fé, sendo assim, comete pecado.

     Sobre o princípio da fé e sobre esse texto, Renovato comenta o seguinte:

Neste texto, vê-se a ênfase na fé ou na convicção do crente diante de Deus, quanto ao que ele faz ou deixa de fazer. Ele não precisa recorrer a paradigmas humanos ou lógicos para posicionar-se quanto a atos ou palavras. Se tem dúvida, não deve fazer, pois “tudo o que não é de fé é pecado.[1].

     Russel N. Champlin, em sua obra “O Novo testamento Interpretado Versículo por Versículo”,  comentando esse mesmo texto nos diz o seguinte:

O crente que exerce a sua liberdade crista sentir-se-á particularmente feliz se exercê-la de tal modo que não encontre causa de autocondenação, isto é, se a sua própria consciência não julgá-lo devido as suas ações. Mas aquele que prejudica a consciência de um irmão na fé dificilmente tem o direito de reivindicar essa bem aventurança. [...] Temos aqui a ideia da certeza quanto a orientação dada pelo Espírito, isto é, a aplicação prática do conhecimento no que tange a conduta apropriada do crente, sobretudo no que se aplica a liberdade cristã. [...] Isto subentende que o crente sujeita a teste a sua conduta. Aprovamos aquilo que mostra ser vantajoso para a comunidade cristã inteira e não somente para nós mesmos.[2]

     Isso quer dizer que se o nosso coração não tem dúvida, tudo o que fizermos está certo? Posso fazer tudo o que meu coração aprova? Não. Não é isso que o texto quer dizer. Vejamos o comentário de Renovato:

A pergunta a ser feita é: “O que pretendo fazer ou dizer é de fé, com base na Palavra de Deus?”. Se a resposta for positiva, a atitude será lícita. Se não, deve ser descartada, por ferir a ética cristã. Se algo é de fé ou não na ética cristã, não deve ser uma questão pessoal, mas de fé, com base na Bíblia. Essa é a lógica do Novo Testamento.[3].

     A palavra fé está intimamente ligada à “convicção”. Porém “convicção” que tenha base na Palavra e não na nossa intuição sobre as coisas.

4.2 – O princípio da licitude e da conveniência

     Para entendermos este princípio, iniciemos com a leitura do texto bíblico que se encontra em I Coríntios 6.12:

12 Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. (I Coríntios 6.12)

     O texto acima está ligado à questão da licitude e da conveniência. Sobre isto Renovato comenta:

Esse critério orienta o cristão a que não faça as coisas apenas porque são lícitas, mas porque são lícitas e convêm, à luz do referencial ético que é a Palavra de Deus. Há quem entenda esse princípio, argumentando que se podemos fazer algo, é porque isso é lícito. À luz da ética cristã, não é bem assim que se deve argumentar. Primeiro, diante de uma atitude ou decisão a tomar, é preciso indagar se tal comportamento está de acordo com a Palavra de Deus, se tem apoio nas Escrituras. Segundo, mesmo que seja lícito, se convém. [...] Conforme este princípio, o cristão deve indagar. “O que desejo fazer é lícito? Convém fazer, segundo a Palavra de Deus?”. Se a resposta for positiva, diante da Bíblia, pode ser feito. Se não, deve ser rejeitado. O que é lícito e conveniente não fere outros princípios bíblicos.[4].

     Sobre licitude e conveniência, podemos ainda recorrer ao comentário que Champlin faz sobre esse texto de I Coríntios 6.12. Vejamos o que ele diz:

...Todas as cousas me são lícitas... Podemos supor que o partido dos libertinos, na igreja cristã de Corinto, usava esse slogan, entre outros, provavelmente utilizando-se de expressões paulinas, embora distorcidas. [...] A resposta de Paulo é dupla: 1. Nem todas as coisas me são convenientes, nem pessoal e nem socialmente, sem dúvida. Em outras palavras, devo ter cuidado com as minhas ações, para que não venha a prejudicar a outros. (Com isso se podem comparar os trechos de I Cor. 7:35; 10:23 e 12:7). 2. Todas as coisas são legitimas, isto é, estão em meu poder de serem praticadas, mas ...eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.[5]

     Em síntese, o que nos diz o princípio da licitude e da conveniência para seu uso na ética cristã? Mesmo as coisas que são lícitas só podem ser praticadas se se mostrarem convenientes segundo a Palavra de Deus.

4.3 – O princípio da licitude e da edificação

     Esse princípio encontra-se no texto bíblico de I Coríntios 10.23, o qual diz:

23 Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. (I Coríntios 10.23).

Com base neste texto, não basta que alguma conduta ou proceder seja lícito, mas é preciso que contribua para a edificação do cristão. É um princípio irmão gêmeo do anterior. A ênfase aqui é na edificação espiritual de quem deve posicionar-se ante o fazer ou não fazer algo. [...] A questão a ser posta, segundo esse princípio é: “O que quero fazer é lícito? Se é lícito, tal coisa contribui para minha edificação e dos que estão à minha volta?”. A resposta tem de ser confrontada com o referencial ético, que é a Palavra de Deus. Se for positiva, a ação deve ser realizada. Se não, deve ser deixada de lado.[6]

4.4 – O princípio da glorificação a Deus

     Este princípio pode ser encontrado, claramente, em I Coríntios 10.31:

31 Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. (I Coríntios 10.31).

     Sobre este princípio, da glorificação a Deus, é válido aqui o comentário de Elinaldo Renovato de Lima. Ele escreve o seguinte, em seu livro sobre Ética Cristâ:

Aqui temos um princípio ético abrangente, que inclui não só o comer e o beber, mas “qualquer coisa”, que demande um posicionamento cristão. No dia a dia, o cristão sempre se depara com situações, às vezes triviais, que exigem uma tomada de posição. [...] Assim, qualquer atitude ou decisão a tomar, em termos morais, financeiros, negócios, transações, etc., tudo pode passar pelo crivo do princípio da glorificação a Deus; e o crente fiel, na direção do Espírito Santo, saberá responder sem maiores dificuldades. [...]  A indagação que o cristão deve fazer, com base nesse princípio, é: “O que desejo fazer ou dizer contribui para a glorificação de Deus?”. Se a resposta for afirmativa, pelo Espírito Santo, a ação ou atitude pode ser executada. Se for negativa, é melhor que seja rejeitada. O que contribui para glória de Deus não fere nenhum princípio bíblico.[7]

     Vale salientar aqui que uma pessoa, morta em seus delitos e pecados, jamais saberá diferenciar o que glorifica e o que não glorifica a Deus. Esse princípio, então, aplica-se ao crente, regenerado, cuja mente consegue perceber quais ações glorificam a Deus.

4.5 – O Princípio da ação em Nome de Jesus

     Esse princípio da Ética Cristã pode ser encontrado na Carta do Apóstolo Paulo aos Colossenses 3.17. Assim está escrito:

17 E tudo quanto fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai. (Colossenses 3.17).
           
            Explicando esse princípio, a partir do texto em questão, Elinaldo Renovato de Lima assim escreveu em sua obra “Ética Cristã”:

A condição do crente para realizar ou deixar de realizar algo, decorre da autoridade que lhe foi conferida pelo nome de Jesus. Assim, quando o cristão se vê na contingência de tomar uma decisão, de ordem espiritual, ou humana, pode muito bem concluir pela ação ou não, se puder realiza-la no nome de Jesus, conforme orienta o apóstolo Paulo aos irmãos colossenses. [...] o teste a ser feito, diante da decisão a tomar, é: “Posso fazer isso em nome do Senhor Jesus?”. Se a resposta, pelo Espírito Santo, for sim, é lícito e convém. Se não, não deve ser feito ou dito, pois não é lícito nem convém. Os princípios éticos cristãos não se excluem, mas se somam para fortalecer a decisão a ser tomada.[8].

     É sabido que muitos usam o nome do Senhor Jesus de maneira vã. Mas lembremos que estamos falando sobre a Ética Cristã que, necessariamente, deve nortear a vida do verdadeiro cristão. E todo cristão verdadeiro sabe agir em nome do Senhor Jesus, o Cristo.

4.6 – O princípio do fazer para o Senhor

            Esse princípio está expresso formalmente em Colossenses 3.23.

“23 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens.” (Colossenses 3.23).

     Ainda recorrendo ao que escreveu Renovato, podemos encontrar o seguinte comentário para este princípio:

O apóstolo S. Paulo asseverou: “Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (G11.10). [...] Essa é a questão: Diante de uma atitude, de uma decisão, devemos indagar: “Estamos agradando a Deus ou aos homens? Estamos fazendo, de todo o coração, ao Senhor?”. A resposta deve ser honesta, consultando não o coração, mas a Palavra de Deus.[9].

     O princípio de fazer para o Senhor é importante para orientar o cristão naquelas ocasiões onde a dúvida sobre qualquer coisa surgir. Pensemos que devemos fazer para o Senhor, sendo assim, nenhum cristão que experimentou o novo nascimento e busca uma vida de acordo com a vontade de Deus faria algo para agradar aos homens, desagradando ao Senhor. Também, o cristão que anda segundo os padrões divinos, ao fazer o bem a alguém pensará em agradar ao seu Senhor.

4.7 – O princípio do respeito ao irmão mais fraco

     Um dos textos que nos lembram o princípio do irmão mais fraco é I Coríntios 8.9-13. Leiamos:

9 Vede, porém, que esta vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser tropeço para os fracos.
10 Porque, se alguém te vir a ti, que és dotado de saber, à mesa, em templo de ídolo, não será a consciência do que é fraco induzida a participar de comidas sacrificadas a ídolos?
11 E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu.
12 E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais.
13 E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo. (I Coríntios 8.9-13).

     A respeito desse princípio Renovato nos diz:

No texto bíblico acima, vemos que o apóstolo ensinava sobre os que comiam coisas sacrificadas aos ídolos. S. Paulo diz que os mesmos tinham “fraca consciência” e que os que têm ciência, sentando-se à mesa no templo dos ídolos, podem induzir o que é fraco a pecar. “E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu... ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo” (ênfases minhas). Desse texto, podemos tirar várias lições para a vida do cristão em relação aos outros irmãos mais novos na fé, ou mesmo antigos, que têm consciência fraca. O apóstolo chega ao extremo de dizer que se pelo manjar que come, um irmão se escandaliza, nunca mais haveria de comê-lo.[10].

4.8 – O princípio do evitar a aparência do mal

     Comecemos com o texto que ampara esse princípio:

“22 Abstende-vos de toda aparência do mal”. (I Tessalonicenses 5.22).

     Em seu livro “Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo”, Elinaldo Renovato apresenta o princípio do desviar-se da aparência do mal da seguinte maneira:

Ser cristão verdadeiro não é nada fácil num mundo em que os valores morais estão relativizados. Não basta evitar o mal, é preciso evitar também a aparência do mal. [...]O que se deve perguntar é: “O que penso em fazer ou dizer pode dar a aparência do mal?”. Se a resposta for positiva, é melhor evitar o que se tem em mente. Se for negativa, pode ser feito, mas levando-se em conta os outros princípios da ética cristã citados.[11].

     Diante dos princípios expostos acima, alguém pode mencionar que para todo e qualquer caso de dúvida devemos seguir nossa consciência. Será que é isso mesmo? Nas palavras de R. C. Sproul, a coisa não é tão simples assim, pois “a função da consciência em tomarmos decisões éticas tende a complicar as coisas para nós.”[12].
     Por que o R. C. Sproul coloca a consulta à consciência como algo que pode complicar as coisas? Ele mesmo explica no contexto:

“Somos tendentes a pensar na consciência como uma coisa celestial, um ponto de contato com Deus, e não um órgão infernal. Pensamos no personagem de desenho animado que está diante de uma decisão ética, enquanto um anjo está sentado num dos ombros, e um demônio, no outro, brincando de cabo de guerra com a cabeça do pobre homem. A consciência pode ser a voz do céu ou do inferno; ela pode mentir, bem como impelir-nos à verdade. Pode filar de ambos os lados de sua boca, tendo a capacidade tanto de acusar como de desculpar.”[13].

     No entanto, o mesmo Sproul vem em defesa da consciência, ao dizer que: “Embora a consciência não seja o tribunal supremo de ética, ê perigoso agir contra ela. [...] A consciência é um instrumento delicado que precisa ser respeitado”.[14]

     A conclusão é que precisamos seguir os princípios da ética cristã, usando nossa consciência, porém esta deve ser guiada pela Palavra de Deus.




[1]  LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.16.
[2]  CHAMPLIN, Russel N. O Novo Testamento, Interpretado Versículo por Versículo. Volume III. São Paulo: Candeia. 1988. p.851.
[3]  LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.17.
[4]  Idem p.18-19.
[5]  CHAMPLIN, Russel N. O Novo Testamento, Interpretado Versículo por Versículo. Volume III. São Paulo: Candeia. 1988. p.851.
[6]  LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.19-20.
[7]  Idem p.21.
[8]  Idem p.22-23.
[9]  Idem p.24.
[10] Idem p.25.
[11] Idem  p.30.
[12]  SPROUL, R. C. Como Devo Viver Neste Mundo? São José dos Campos: FIEL. 2012. p.120.
[13]  Idem.
[14]  Idem p.120-123.

10 de julho de 2016

Visão Geral das Abordagens Éticas

III – VISÃO GERAL DAS ABORDAGENS ÉTICAS

Pr. Gilson Soares dos Santos

3 – Visão geral das abordagens éticas

            O que a Ética tenta responder? As diversas abordagens éticas tentam responder questões pertinentes ao que é certo ou errado. Se destrinçarmos de maneira meticulosa as abordagens éticas, certamente encontraremos muitas variantes, entretanto, queremos apresentar apenas algumas das principais abordagens éticas. Vejamos:

3.1 – O Antinomismo

            Vejamos o que defende essa abordagem ética:

“É uma abordagem ética, segundo a qual, não existem normas objetivas a serem obedecidas. É a ausência de normas. [...] Esse tipo de visão encontra abrigo na mente de muita gente, principalmente entre os mais jovens, que anseiam por liberdade, sem refletir muito bem sobre as responsabilidades que nossas ações incorrem. [...] Na rebelião da juventude, na década de 1960, os jovens, na França, bradaram: “É proibido proibir”. Na onda do movimento hippie, muitos naufragaram, consumindo e consumidos pelas drogas, adotando um estilo de vida paradoxal, que visava, no entender de seus amantes, ir de encontro à sociedade organizada, passando por cima de suas normas e valores.”[1].

            Norman Geisler nos fala do antinomismo nos seguintes termos:

“A primeira alternativa no que diz respeito às normas éticas é que não existe norma alguma, ou pelo menos nenhuma norma objetiva. Ou seja: estamos literalmente sem lei (anti-nomos) para guiar ações éticas relevantes. As alegadas normas éticas que os homens usam, ou são destituídas de valor objetivo ou destituídas de relevância empírica. São, ou puramente subjetivas, ou completamente emotivas. Duas posições que têm pontos de vista, antinomistas são o existencialismo e o emotivismo ”.[2].

“[...] Não há nenhum princípio moral (tal como “não se deve mentir”). [...] Se não houver padrões morais, não pode haver julgamentos morais. [...] Segundo o ponto de vista antinomista não existe nenhuma norma objetiva mediante a qual o julgamento possa ser feito.”[3]

            O antinomismo, dentro da Ética Cristã, está ligado à posição daqueles que abraçam uma aversão à Lei Moral e uma perspectiva teológica que coloca a lei e o evangelho como opositores, chegando a afirmar que o cristão, que é justificado mediante a fé, não precisa cumprir a lei moral.
            Na obra “A Glória da Graça de Deus”, editada por Franklin Ferreira, há um capítulo, da autoria de Jorge Max da Silva, onde ele mostra a posição antinomista, adotada por alguns evangélicos, como extremamente perigosa. Vejamos como ele no-la apresenta:

“Em síntese, ela denota uma perspectiva teológica que “opõe à lei e ao evangelho a ponto de afirmar que o cristão, justificado mediante a fé, não tem obrigação alguma para com a lei moral”. A tese central defendida pelos antinomistas é que a lei moral foi abolida por Cristo e revogada pelo evangelho, pois quem está debaixo da graça não está mais debaixo da lei, logo, da obrigação de guardá-la.”[4].

3.2 – O Generalismo
           
            Agora, vejamos o que prega o generalismo:

“Essa doutrina prega que deve haver normas gerais, mas não universais. E o que deve ser levado em conta são os resultados absolutos. Nenhum ato ou conduta podem ser considerados certo ou errado, a não ser em função de seus resultados para o indivíduo, ou para a sociedade. As regras existem, mas podem ser quebradas, dependendo dos fins. Tal afirmação corresponde ao que pregava o filósofo Maquiavel: “Os fins justificam os meios”. Os generalistas são utilitaristas. Só é certo o que produz melhor resultado (mais felicidade ou prazer do que dor). Uma norma pode ser boa hoje, e não servir amanhã. Depende da sociedade. Se, por exemplo, o adultério é errado em certo período, em outro, poderá ser aceito. Dessa forma, pode-se resumir essa abordagem, dizendo que “há um só fim absoluto (o máximo bem) e todos os meios (regras, normas, etc.) são relativos àquele fim... Se, nesta situação, mentir seria mais útil ou vantajoso para a maioria dos homens, então se deve mentir”.[5].

            Nas palavras de Norman Geisler, em sua obra “Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas”, o Generalismo prega, por exemplo, que “Mentir é, geralmente, mas nem sempre errado. [... Mentir é errado como regra geral, mas há ocasiões em que a regra deve ser quebrada. [...] É correto mentir quando o mentir realizará um bem maior do que não mentir”.[6]

            Geisler continua falando do generalismo da seguinte maneira:

“Para alguns generalistas, pois, não há regras universais que realmente não tenham exceção. Na melhor das hipóteses são apenas normas que podem ser quebradas se a ocasião assim o exigir. Desta maneira, mentir para salvar uma vida pode ser certo, embora a mentira seja geralmente errada.”[7].

3.3 – O Situacionismo

            O situacionismo é outra das abordagens éticas. É também chamado de Ética Situacional. Foi ensinado por Hoseph Fletcher e sua premissa é “Fazer aquilo que é mais cheio de amor”. Vejamos como é apresentado por Elinaldo Renovato de Lima em sua obra sobre Ética Cristã:

“É um meio-termo entre o Antinomismo e o Generalismo. O primeiro não tem regra nenhuma; o segundo admite regras gerais, mas não universais. Joseph Fletcher foi seu principal teórico. Para ele, só há uma lei para tudo: a lei do amor. “Somente o mandamento do amor é categoricamente bom”. Geisler cita um exemplo: “Estamos obrigados a contar a verdade, por exemplo, somente se a situação assim exige; se alguém quer ser assassino, pergunta onde está sua vítima; nosso dever pode ser mentir” (ibidem, p. 53); “se uma mentira for contada em amor, é boa e certa” (Ibidem, p. 55)- Em resumo, nessa visão, o certo e o errado dependem da situação, em função do amor às pessoas. Baseiam-se inclusive na Bíblia, que resume toda a lei no amor (Mt 22.34-40). “O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10).”[8].

            Nesse contexto, para o situacionismo, roubar para salvar uma pessoa que está morrendo de fome ou mentir para salvar uma pessoa inocente de um assassino não seria errado. O situacionismo abre demais as portas para padrões individualistas. Para os que adotam esta abordagem ética o ato é coberto pelo bem maior.
            Na Ética Situacional (o situacionismo), até mesmo os princípios mais reverenciados devem ser deixados de lado se estiverem em conflito com o amor. O amor deve ser colocado acima do sistema, dos mandamentos e das regras. Em qualquer situação, o amor diz como devemos agir. Em síntese, segundo o situacionismo, a norma reguladora da ética cristã é o amor.

3.4 – O Absolutismo

            Essa abordagem ética consiste no seguinte:

“Essa doutrina sustenta que “há muitas normas absolutas que nunca entram realmente em conflito”. Platão ensinava que existem normas ou virtudes universais que nunca precisam variar. Dentre essas virtudes estariam a coragem, a temperança, a sabedoria e a justiça. Emanuel Kant defendia a ideia de um “Imperativo Categórico”, que seria a norma para a vida por excelência. Para entender essas ideias, alguns exemplos são úteis. Kant dizia que “nunca se deve tirar a vida inocente, e nunca se deve contar uma mentira”. Para ele, não justifica mentir, mesmo para salvar uma vida. Ele afirma que, mesmo havendo desvantagem em falar a verdade, isso deve ser feito, pois, ao mentir, estaremos agindo contra todos os homens. Quanto à verdade, ele afirma: Porque “ser veraz (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento incondicional sagrado da razão, e não deve ser limitado de qualquer maneira pela conveniência””[9]

            Concluindo essa parte sobre abordagens éticas contemporâneas, recorremos ao texto de Elinaldo Renovato de Lima:

As abordagens éticas contemporâneas podem ser estudadas pelos cristãos, como forma de se avaliar a conduta a ser seguida, na visão dos homens, mas é na Bíblia Sagrada que se encontram os referenciais éticos indispensáveis para um viver santo e digno, em meio a uma sociedade que é vista por Deus como reprovável e corrompida. Diz S. Paulo: “Para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo” (Fp 2.15).[10]

            Sabemos que os padrões de ética humana são diferentes de um país para outro, de uma geração para outra. Porém, os padrões da Ética Cristã, sendo norteados pela Revelação de Deus, as Escrituras Sagradas, não podem mudar. Embora muitos queiram adequar o ensino das Escrituras ao pensamento da pós-modernidade, é preciso saber que a Palavra de Deus esta acima de todas as coisas e todas as decisões sobre o certo e o errado devem ser pautadas pela Revelação Soberana de Deus, a Bíblia Sagrada.




[1] LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.10.
[2] GEISLER, Norman L. Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova. 2001. p.24.
[3] idem p.11.
[4] FERREIRA, Franklin. (editor) A Glória da Graça de Deus. São José dos Campos: Fiel. 2012. p.587.
[5]  LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.11.
[6] GEISLER, Norman L. Ética Cristã: Alternativas e Questões Contemporâneas. São Paulo: Vida Nova. 2001. p.12.
[7] Idem p.47.
[8]  LIMA, Elinaldo Renovato de. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do Nosso Tempo. Rio de Janeiro: CPAD. 2006. p.11.
[9]  Idem p.12.
[10] Idem.

22 de junho de 2016

Resumo histórico da Ética


II – RESUMO HISTÓRICO DA ÉTICA

Pr. Gilson Soares dos Santos

Em toda a história da humanidade é possível identificar os princípios éticos. Faremos agora um resumo histórico e sucinto da ética. Trataremos primeiro da ética de forma geral, depois trabalharemos, mais especificamente, a ética cristã.

1 – A Ética entre os gregos

            Vejamos, primordialmente, a Ética entre os gregos. Para tanto, transcrevemos aqui o conteúdo encontrado no “Dicionário de Ética Cristã”, organizado por Carl Henry. Ele começa mostrando a Ética pré-socrática da seguinte forma:

Ética pré-socrática:

“A ética grega durante o período pré-socrático não existia de forma sistematizada. Heráclito (cerca de 500 a.C.) condenou a bebedeira com base no princípio cósmico do fogo, o qual é seco. Protágoras (cerca de 400 a.C.) e os demais sofistas eram relativistas e concluíram que aquilo que a pessoa pensasse ser justo, seria justo para ela. As religiões de mistério, por muitos séculos, impuseram
alguns tabus irracionais (por exemplo, não comer feijão) e se envolveram em práticas ora ascéticas ora licenciosas.”[1]

            Em seguida, Carl Henry parte para a Ética de Platão, apresentando-a da seguinte maneira:

            Ética de Platão

“Platão (427 - 347 a.C.) não só buscou, sistematicamente, fazer estudos éticos, como, também, tornou-os pontos essenciais de toda a sua filosofia. Seus primeiros diálogos socráticos procuraram definir as diversas virtudes: piedade, justiça, coragem, etc. Ao fazer isso, ele concluiu que a virtude é o conhecimento e que ninguém comete um erro tendo esse conhecimento. [...] Platão, sob influência de Pitágoras e Orfeu, não somente atacou o hedonismo, a teoria de que o prazer seja o bem maior, mas, até mesmo, adotou um tipo de ascetismo, no qual o prazer, na verdade, seria um mal. [...] Platão defendia um governo civil no qual reis filósofos reforçariam um controle totalitário das artes, da educação e do comércio, de maneira a promover a temperança, a coragem, a justiça e a sabedoria, juntamente com a repressão da promiscuidade e a abolição da família.”[2].

            Na sequência, Carl Henry, expõe a Ética Aristotélica. Leiamos como ele escreve em seu “Dicionário de Ética Cristã”:

            Ética de Aristóteles:

“Aristóteles (384-322 a.C.), [...] era tão totalitarista quanto Platão; o estado seria a comunidade suprema que incluiria todas as demais, e já que as comunidades seriam organizadas para o bem, esse estado totalmente inclusivo visaria ao bem totalmente inclusivo. A família, porém, não deveria ser abolida, mas apenas regulamentada. O bem, para o homem, seria determinado pela natureza humana. Como “todos os homens, por sua natureza, desejam conhecer”, conforme sua Metafísica declara na primeira linha, o maior bem seria a prática e o deleite da contemplação e da filosofia. [...] As virtudes morais, distintas das mais altas virtudes intelectuais, seriam coisas tais como coragem, liberalidade, temperança, etc. Ele os define como “a quantia certa” (nem demais nem de menos) de sentimentos e ações. Temor demais é covardia; temor de menos é loucura; a quantia certa de temor é coragem.”[3].

            É bom tratarmos aqui sobre os Epicureus e os Estóicos. Duas classes de filósofos para os quais o apóstolo Paulo discursou em Atenas, segundo encontramos em Atos 17. Sobre eles encontramos no “Dicionário de Ética Cristã” o seguinte aspecto:

            Ética de Epicuro

“Os epicureus aceitavam o hedonismo; entretanto, defendiam sua teoria com pouca lógica e com um extenso sistema de física. [...] Não recomendavam os prazeres sensuais grosseiros. Embora bons em si mesmos, os prazeres intensos produziriam dor e, portanto, seria necessário que se buscassem prazeres mais amenos. Epicuro fez, até mesmo, uma quase recomendação do celibato. Bem a seu gosto, estariam uma boa refeição, uma soneca ao sol, a fuga da política e a vida em família. Os atos injustos deveriam, também, ser evitados porque, mesmo que se conseguisse fugir da punição, não se poderia fugir do medo de ser descoberto, e esse medo, ou dor, desequilibraria os prazeres derivados da injustiça”.[4].

            Ética do Estoicismo

“O estoicismo, em oposição ao hedonismo, definia a vida racional como uma vida de virtude. Além das virtudes pessoais comuns, eles enfatizavam, ao contrário dos epicureus, as responsabilidades políticas e familiares. Para eles, a maioria dos homens, exceto, talvez, Sócrates, seria totalmente má. Não existiria gradação de maldade; um homem que se afogasse em algumas dezenas de litros de água estaria tão morto quanto o homem que se afogasse em duzentos mil litros. Não se pode ascender da morte para a vida nem do mal para a sabedoria. A regeneração moral teria de ser completa e instantânea.”[5].

2 – A Ética na Patrística

            Passemos agora a contemplar a Ética Patrística. Todos os pontos que veremos a seguir encontra-se no verbete “Ética Patrística” do “Dicionário de Ética”, de Carl Henry, nas páginas 265-266:

·         Davam a impressão de que a pessoa se tornava cristã não pela graça de Deus, mas mediante seus próprios esforços, por meio do alinhamento de sua conduta aos padrões cristãos.
·         Há muita ênfase no arrependimento e nas boas obras e pouca ênfase na obra de Cristo.
·         Deus “aceita somente aqueles que imitam as excelências que nele habitam”.
·         A ênfase também estava na superioridade da temperança sobre a lascívia, do amor sobre o ódio, da harmonia sobre a divisão e ira; na importância da verdade contra a falsidade e o fingimento. Com a manutenção da temperança sexual e rejeição da fornicação, pederastia e o infanticídio.
·         Também é encontrado na Patrística: orientações sobre comida, bebida, sono, vestimentas, adornos pessoais e relações sexuais. Rejeição da remoção da barba do rosto como um desrespeito a criação do Senhor.
·         Orígenes chegou a se castrar porque julgava o mundo material num âmbito mais baixo que o espiritual.
·         Tertuliano incentivava as práticas ascéticas como um suplemento à obra expiatória de Cristo. O comércio e o ensino em escolas pagãs eram considerados incompatíveis com o comportamento ético cristão. O cristão deveria recusar o serviço militar. Vestidos coloridos para as mulheres não eram bem vistos. O casamento era depreciado.
·         Jerônimo julgava as relações sexuais inferiores à virgindade.

“Os primeiros cinco séculos após os apóstolos tem sido, muitas vezes, um desapontamento subjetivo para o ético cristão dos tempos modernos. O ensinamento de nosso Senhor foi mal compreendido. A salvação pessoal parece ter sido colocada sobre a base da conduta cristã. A influencia da justiça pelas obras judaizantes permaneceu forte, assim como, também, o impacto do estoicismo grego e latino. Contudo, a influência do relato do evangelho com respeito aos atos e ensinamentos de Cristo chegou aos membros das congregações cristãs. Elas demonstraram padrões de vida menos egoístas do que os de seus vizinhos. Sua preocupação com o bem-estar do próximo ficou patente. Seu culto era monoteísta e livre da influência licenciosa das divindades pagãs. Em especial, a atitude reverente para com a vida humana, demonstrada por meio de sua recusa a expor os bebês à morte e por meio do seu respeito em relação aos fisicamente mais fracos e deficientes, era algo impressionante. Os escravos eram recebidos como sendo iguais aos livres. A posição das mulheres era mais alta do que nas sociedades pagãs à sua volta. A crueldade nos jogos “esportivos” era rejeitada.”[6]

3 – A Ética Reformada

            Trataremos agora da Ética nos Reformadores. Continuaremos seguindo o roteiro exibido por Carl Henry no “Dicionário de Ética Cristã”, desta feita, nas páginas 279 a 280:

·         Zwínglio apreciou ações acima de conversas. Para ele, os Dez Mandamentos se postam como um padrão eternamente válido para a conduta cristã. No seu catálogo de virtudes cristãs, ele colocou especial ênfase na disciplina, na temperança, na sobriedade, características que capacitam o crente para a ferocidade da luta espiritual.
·         A ética reformada mantém o ensino distintivo da Reforma de que um homem não é capaz de agradar a Deus de qualquer maneira a parte da graça de Deus em Cristo e do poder regenerador do Espírito Santo.

“As confissões e teologias reformadas enfatizam outros aspectos da ética além dos aspectos legais; (1) a ética reformada inclui a “situacional” no sentido de que ela vê a tarefa ética como a de dirigir as circunstâncias presentes para um objetivo futuro (o do reino de Deus) e, portanto, como requerendo uma analise da presente “situação”. Ela reconhece que a situação presente já está estruturada pelos grandes atos redentores de Deus no passado e que está sendo dirigida pela providência de Deus para a consumação final. A vida cristã, portanto, se caracteriza por uma tensão entre o “já ”, mas “ainda não”. Diferente do “situacionismo” moderno, porem, a ética reformada reconhece que o fator mais importante na situação presente é o eterno Deus que continua a dizer sua vontade quanto a nós por meio das Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos. (2) A ética reformada inclui a “existencial” no sentido que ela vê a fé e o amor como condições necessárias e suficientes para as genuínas boas obras e, portanto, vê a tarefa ética como a de purificação do homem interior para que sua justiça possa ser mais do que apenas externa. Diferente da ética “existencial” moderna, porem, a posição reformada reconhece o poder dos mandamentos de Deus para purificar a alma (SI 19) quando dirigidos ao coração crente.”[7].

4 – Ética Puritana

            Trataremos agora sobre a Ética Puritana. Porém, antes, é bom lembrar que os puritanos também eram reformados. Não queremos desvincular os puritanos dos reformados, mas, em nosso curso, usaremos um tópico para tratar, especialmente, da ética dos puritanos. Também usaremos o “Dicionário de Ética”, organizado por Carl Henry, especificamente, nas páginas 277-279, onde encontramos o verbete, de autoria de J. I. Packer, sobre Ética Puritana.

·         A Ética Puritana assumiu a confissão reformada sobre a soberania e a majestade de Deus, como fonte, Senhor, e fim de todas as coisas, e da perversidade radical do homem natural, rebelde e carente da glória do seu Criador.
·         Em John Bunnyan, “o cristão teria de peregrinar ao longo desta vida perigosa e distrativa com o coração e os olhos no céu, não permitindo que o desejo se fixe nas coisas da terra. Por meio da vigilância e da oração, deveriam contender diariamente contra o mundo, a carne e o diabo, inimigos dos quais, outrora, foram escravos, mas dos quais, então, obtiveram liberdade em Cristo. A autodisciplina ordenada, baseada no conhecimento da lei e das promessas de Deus era essencial para o bem-estar do guerreiro-peregrino.”
·         “Deus e glorificado e o pecado é evitado por meio do trabalho duro, e todas as pessoas necessitariam de uma vocação profissional legal. O dinheiro, o tempo e os talentos deveriam ser empregados para Deus; a ociosidade demonstraria um mau coração. A economia, o capitalismo e a filantropia deveriam ser encorajados.”
·         Os puritanos promoviam a educação, o respeito ás ciências e às artes. Combatiam as artes que apresentassem baixo nível e rebaixassem as pessoas. Eles acreditavam que a sinceridade requeria a simplicidade. Tratavam a família como um clã patriarcal. Para eles, a família era uma igreja em miniatura.

5 – Ética Arminiana

            Vejamos um pouco sobre Ética Arminiana, a partir do “Dicionário de Ética Cristã”, de Carl Henry, que se encontra nas páginas 56-57.

·         “O princípio proeminente da ética arminiana é a ideia de livre arbítrio. Se o homem é verdadeiramente livre, só ele é responsável por suas escolhas.”
·         “A ética arminiana enfatiza os deveres humanos. Boas obras resultam da nova vida. Contudo, o novo homem em Cristo tem de obedecer aos mandamentos de Deus como condição de comunhão divina. As virtudes básicas de amor, temor, confiança e honra, são evidências ao mundo da presença de Cristo no cristão. O processo de santificação confirma o homem em santidade, capacitando-o a obedecer a Deus. A vida cristã é condicionada sobre a fé que se expressa na obediência a Deus.”.

6 – A Ética Calvinista

            Embora Calvino seja reformado e os puritanos tenham sido calvinistas, queremos destacar aqui a Ética Calvinista. O mesmo “Dicionário de Ética”, já citado, no servirá de base. Vejamos como o apontamento sobre a Ética Calvinista encontra-se no dicionário:

“A ética calvinista é baseada na revelação. A distinção entre certo e errado não se resolve por meio de uma descoberta empírica da lei natural, como foi o caso de Aristóteles e de Tomás de Aquino, nem pelo formalismo lógico de Kant e, certamente, nem pelo cálculo impossível do utilitarismo do maior bem para maior número, mas pela revelação de Deus nos dez mandamentos. Essa revelação vem, primeiro, do ato de Deus criar o homem à sua própria imagem e dos princípios morais básicos implantados no seu coração, mais tarde violados pelo pecado; segundo, das instruções específicas dadas a Adão e a Noé, que sem dúvida ultrapassavam e expandiam a doação inata; terceiro, da revelação mais compreensiva dada a Moisés; e, quarto, dos diversos preceitos subsidiários dados no restante da Bíblia.”[8].

“Seguindo essa direção de Calvino, os estudiosos de Westminster dedicaram as questões 91-151 do Catecismo Maior à lei moral. [...] Os pecados proibidos no sétimo mandamento, além da negligência dos deveres exigidos, são: adultério, fornicação, rapto, incesto, sodomia e todas as concupiscências desnaturais, todas as imaginações, pensamentos, propósitos e afetos impuros; todas as comunicações corruptas ou torpes, ou o ouvir as mesmas; os olhares lascivos, o comportamento impudente ou leviano; o vestuário imodesto; a proibição de casamentos lícitos e a permissão de casamentos ilícitos; o permitir, tolerar ou ter bordéis e a frequentação deles; os votos embaraçadores do celibato; a demora indevida de casamento; o ter mais que uma mulher ou mais que um marido ao mesmo tempo; o divórcio ou o abandono injusto; a ociosidade, a glutonaria, a bebedice, a sociedade impura; cânticos, livros, gravuras, danças, espetáculos lascivos e todas as demais provocações à impureza, ou atos de impureza, quer em nós mesmos, quer nos outros.”.[9].

7 – Depois da Reforma

            Depois da Reforma houve um movimento significativo que buscou separar a Ética da Bíblia:

            Thomas Hobbes (1588-1679):

“A análise da natureza humana em si estabelece uma base para o bem-estar geral. Sua ética egoísta não significa, como pode parecer a primeira vista, o desmazelo ou o hedonismo. Significa que, com profundeza, cada um deve procurar seus verdadeiros interesses – e que estes coincidirão com os verdadeiros interesses da sociedade. Essa ética é imanente e teleológica. A razão humana descobre os princípios de que a ação deve ser fundamentada nas leis existentes na natureza”.[10]

            David Hume (1711-1776)

“Considerou que não era a razão humana que descobria as regras da moralidade. Estas tem a ver com os sentimentos. O agir virtuoso produz sentimentos agradáveis enquanto o vício produz sentimentos desagradáveis, e a aprovação ou desaprovação que registramos dessa maneira é suficiente para nos nortear em questões éticas”.[11]

            Immanuel Kant (1724-1804)

“A razão (prática) era muito importante na definição de princípios éticos e devia governar nossas paizões. Pela razão descobrimos o imperativo categórico – que em si mesmo, é um princípio deontológico, mas não transcendente, que significa agir de acordo com aquela máxima que podemos desejar, ao mesmo tempo, que se torna uma lei universal. O extremo rigor ético de Kant pode ser apreciado, por exemplo, no fato de ele ter dito que se um assassino procura nosso melhor amigo e nos onde ele está, nós não devemos mentir: temos a obrigação de dizer toda a verdade, mesmo ao assassino. A máxima de sempre dizer a verdade se impõe a nossa consciência, pois, ao mesmo tempo, desejamos que se torne uma lei universal”.[12]

            Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873)

“A moralidade é determinada pela procura do maior bem para o maior número possível de pessoas. Assim, as ações poder ser determinadas, em vista de suas consequências e não de algum princípio que nos seja ditado, por um Deus transcendente ou pela natureza.”[13]

8 – Nos Séculos XIX e XX

            Vejamos como ficou as questões da Ética nos séculos XIX e XX. Quem nos traz essa exposição é Alan Pallister, em seu livro “Ética Cristão Hoje”:

            Albrecht Ritschl (1822-1889)

“Deu importância ao conceito do reino de Deus, identificando-o não como uma realidade transcendente, mas sim como uma sociedade humana, unida pelo amor, objeto de nossos esforços aqui na terra. Ele providenciou uma base para o Evangelho Social”.[14]

            Joseph Fletcher (1905-1991) e John Robinson (1919-1983)

“De acordo com Fletcher e Robinson, toda moralidade é relativa à situação em que a pessoa se encontra, sendo o único absoluto deontológico a exigência do amor. [...] A situação e as consequências (teleológicas) dos atos, e não uma norma abstrata, é que ditam a éitca”.[15]

            Concluímos esse resumo, listando aqui os demais segmentos da Ética. Isso fará que o estudante interessando possa pesquisar mais sobre o assunto.

            1) Ética Católica Romana; 2) Ética Contextual; 3) Ética Deontológica; 4) Ética Dialética; 5) Ética Dispensacional; 6) Ética do Ato; 7) Ética Empresarial; 8) Ética Revolucionária; 9) Ética Existencialista; 10) Ética Filosófica; 11) Ética Hebraica; 12) Ética Idealista; 13) Ética Interina; 14) Ética Islâmica; 15) Ética Joanina; 16) Ética Judaica; 17) Ética Ortodoxa Oriental; 18) Ética Paulina; 19) Ética Pelagiana; 20) Ética Pessoal; 21) Ética Petrina; 22) Ética Primitiva; 23) Ética Profissional; 24) Ética Protestante; 25) Ética Situacional; 26) Ética Social; 27) Ética Sexual; 28) Ética Social.



[1]  HENRY, Carl. (org.) Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã. 2007. p.252.
[2]  Idem p.252-253.
[3]  Idem. p.253.
[4]  Idem.
[5]  Idem p.254.
[6]  Idem p.265.
[7]  Idem p.279-280.
[8]  Idem p.231.
[9]  Idem.
[10]  PALLISTER, Alan. Ética Cristã Hoje: Vivendo um Cristianismo Coerente em uma Sociedade em Mudança Rápida. São Paulo: Shedd publicações. 2013. p.23-24.
[11]  Idem p.24.
[12]   Idem
[13]   Idem p.24-25.
[14]  Idem p.25.
[15]  Idem p.26-27.