O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

12 de outubro de 2017

500 Anos da Reforma Protestante: Os Pre-Reformadores

500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE: OS PRE-REFORMADORES

Pr. Gilson Soares dos Santos

     Estamos vivendo os 500 Anos da Reforma Protestante. No próximo dia 31 de Outubro completam-se 500 anos. Pois foi exatamente neste dia que Martinho Lutero expos suas 95 Teses, afixando-as na porta da Catedral de Wittenberg.

     Antes da Reforma Protestante, tivemos o que podemos chamar de PRE-REFORMA. Na verdade, ela não vai acontecer em um único momento, tampouco em um só século. O período que consideraremos como pré-reforma não se dá em um único século, nem em um único lugar ou mesmo por um único homem.

     Diante disso, veremos um pouco sobre os pré-reformadores e, assim, estaremos vendo a PRE-REFORMA DA IGREJA.

3.1_ TOMÁS BRADWARDINE (1290-1349).

     Tomás Bradwardine (1290-1349), teólogo e matemático inglês. Nasceu em Sussex e educou-se em Oxford. Foi chanceler na Universidade de Oxford. Foi nomeado arcebispo de Cantuária. Foi intitulado de “Doutor Profundo”.  Realçava a graça de Deus na salvação.

     “Partindo do axioma de que Deus é principio absoluto de tudo e suprema causa de todo acontecimento, Bradwardine, procedendo matematicamente, deduz de modo rigoroso que a vontade divina não apenas é causa suficiente, mas também é a causa determinante dos atos humanos voluntários. E isso, na sua opinião, significa que Deus pode determinar a vontade humana no cumprimento de atos livres.”[1]

     “Contradizia os seguidores de Pelágio, afirmando que a vontade de Deus é a primeira causa  responsável por todos os efeitos no mundo, incluindo as ações humanas. Influenciou várias figuras contemporâneas e posteriores, incluindo Wycliffe, tradutor da Bíblia para o inglês. Morreu de praga, pouco depois de haver sido nomeado arcebispo de Cantuária”.[2].

3.2_ GREGÓRIO DE RIMINI (1300-1358)

     Gregório de Rimini foi um filósofo italiano. Tornou-se monge agostiniano. Nasceu em Rimini, próximo a Veneza, na Itália. Herdou sua teologia de Agostinho. Realçava a graça de Deus na salvação.

3.3_ JOHN WYCLIFFE (1329-1384)

     John Wycliffe sofre influência das concepções de Tomás Bradwardini. Foi forte opositor ao acúmulo de riquezas da Igreja e à venda indulgências. Também defendia a autoridade soberana das Escrituras.

     “Ele foi ordenado sacerdote, e mudou-se para Oxford, onde suas opiniões teológicas lhe tornaram a figura mais controversa da Universidade, e suas conexões com a família real o tornaram influente. Por quase toda a vida de Wycliffe os papas residiram em Avignon e, assim, ele cresceu em uma atmosfera em que a autoridade religiosa era questionada de forma constante. [...] Começou a identificar publicamente a Bíblia, e não o papa, como a suprema fonte de autoridade espiritual. O papado, ele argumentava, era apenas uma invenção humana, enquanto a Bíblia, detentora de autoridade, determinava a validade de todas as crenças e práticas religiosas. Com base nisso, ele rejeitava e doutrina extremamente filosófica da transubstanciação.”[3].

    “Em poucos anos, esse discurso deixou Oxford – e todo o país – fervilhando. Wycliffe foi obrigado a aposentar-se. [...] No entanto, não ficou ocioso nesse período: escreveu tratados populares explicando seus pontos de vista, comissionou pregadores e organizou uma tradução da vulgata (versão latina da Bíblia) para o inglês. Felizmente para Wycliffe, ele morreu em 1384, antes de o Concílio de Constança condená-lo por heresia (depois disso seus restos mortais foram exumados, queimados e espalhados). Ainda assim, seu legado foi grande. Com a Bíblia em inglês em suas mãos, seus seguidores na Inglaterra dedicaram-se à prática ilegal de ler a Bíblia em grupo e em segredo. Foi provavelmente por isso que eles ficaram conhecidos como “lollardos”, um termo que provavelmente significava “aquele que sussurra”, em referência ao hábito de ler a Bíblia em segredo. Eles consistiriam uma audiência muito receptiva para a Reforma que chegaria um século depois.”

3.4_ JOHN HUSS (1373-1384)

     John Huss fez oposição às práticas do catolicismo romano: Definia a Igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos sacramentos. Opunha-se à venda de indulgências, bem como a adoração às imagens. Defendia veementemente a autoridade das Escrituras. Ele foi queimado em praça pública.

     “Huss foi excomungado e convocado ao Concílio de Constança para defender suas opiniões. Previsivelmente, ele se encontrava muito relutante quanto ao risco de ser queimado como herege ao se lançar com tanta facilidade na cova dos leões; contudo, foi-lhe dada a garantia de salvo-conduto e, assim, ele prosseguiu. A garantia nada valia; ele foi preso de imediato e, depois de seis meses na prisão e de um julgamento falso em que ele se recusou a renunciar suas opiniões, John Huss foi condenado a morte por heresia em 1415.”[4]

     O julgamento e condenação de Huss nos é contado, em detalhes, por Justo Gonzalez. Vejamos os detalhes do julgamento e condenação:

     “No dia 5 de junho de 1415 Huss compareceu diante do concilio. [...] Quando Huss foi levado para a assembleia, ele estava acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser herege e de seguir as doutrinas de Wycliffe. Huss tentou expor suas opiniões, mas a algazarra foi tamanha que ele não se podia fazer ouvir. Por fim, foi decidido adiar a questão para o dia 7 do mesmo mês. [...]  O processo de Huss durou mais três dias. Repetidamente ele foi acusado de herege. [...] O concilio pedia unicamente que Huss se submetesse a ele, retratando-se das suas doutrinas. Ele, no entanto, não estava disposto a escutar nem crer no acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinha crido e ensinado na verdade. Uma simples retratação teria bastado. [...] A resposta de Huss foi firme: “Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos, eu deponho a minha causa, pois ele há de julgar cada um não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça”.”[5].

     “Por vários dias, deixaram-no encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram pedir-lhe que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha indelével para o concilio de Constança. João Huss, no entanto, continuou firme.”[6].

     “Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois lhe cortaram o cabelo para estragar a tonsura, fazendo-lhe uma cruz na cabeça. Por último, colocaram-lhe na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde seus livros eram queimados. Mais uma vez, pediram-lhe que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza. Por fim, orou, dizendo: “Senhor Jesus, por ti sofro com paciência essa morte cruel. Rogo-te que tenhas misericórdia dos meus inimigos” . Morreu cantando os salmos.”[7].

3.5_ JOÃO DE WESSEL (1420-1489)

     João de Wessel foi um teólogo alemão (alguns afirmavam que era holandês), Ia contra os ensinamentos católicos. Negava o dogma da transubstanciação e opunha-se à venda de indulgências e ao celibato clerical. Frisava a autoridade das Escrituras, negava a autoridade do Papa. Fazia parte da Comunidade dos Irmãos da Vida Comum. Morreu na prisão depois de ser condenado por heresia e depois de se retratar.

3.6_ JERÔNIMO SAVONAROLA (1452-1498)

     Jerônimo de Savonarola era um monge dominicano italiano. Pregava contra a imoralidade papal. Foi enforcado e queimado por heresia.

     “Jerônimo era o terceiro dos sete filhos da família. Nasceu de pais cultos e mundanos, mas de grande influência. Seu avô paterno era um famoso médico na corte do duque de Ferrara e os pais de Jerônimo planejavam que o filho ocupasse o lugar do avô. No colégio, era aluno esmerado. Mas os estudos da filosofia de Platão e de Aristóteles, deixaram-lhe a alma sequiosa. Foram, sem dúvida, os escritos de Tomaz de Aquino que mais o influenciaram (a não ser as próprias Escrituras) a entregar inteiramente o coração e a vida a Deus. Quando ainda menino, tinha o costume de orar e, ao crescer, o seu ardor em orar e jejuar aumentou. Passava horas seguidas em oração. A decadência da igreja, cheia de toda a qualidade de vício e pecado, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a profunda pobreza dos pobres, magoavam-lhe o coração.”[8].

     “Depois de passar sete anos no mosteiro de Bolongna, frei (irmão) Jerônimo foi para o convento de São Marcos, em Florença. Grande foi o seu desapontamento ao ver que o povo florentino era tão depravado como o dos demais lugares. (Até então ainda não reconhecia que somente a fé em Deus salva o pecador.)”[9].

     “Certo dia, ao dirigir-se a uma feira, viu, repentinamente, em visão, os céus abertos e passando perante seus olhos todas as calamidades que sobrevirão à igreja. Então lhe pareceu ouvir uma voz do Céu ordenando-lhe anunciar estas coisas ao povo. [...] Convicto de que a visão era do Senhor, começou novamente a pregar com voz de trovão. Sob a nova unção do Espírito Santo a sua condenação ao pecado era feita com tanto ímpeto, que muitos dos ouvintes depois andavam atordoados sem falar, nas ruas. Era coisa comum, durante seus sermões, homens e mulheres de todas as idades e de todas as classes romperem em veemente choro.”

     “Contudo, o sucesso de Savonarola foi muito curto. O pregador foi ameaçado, excomungado e, por fim, no ano de 1498, por ordem do Papa, foi queimado em praça pública. Com as palavras: "O Senhor sofreu tanto por mim!", terminou a vida terrestre de um dos maiores e mais dedicados mártires de todos os tempos.”[10]

     A fim de facilitar os estudos, transcrevemos a seguir um Quadro dos Precursores da Reforma, os Pré-Reformadores. Este Quadro pode ser encontrado no Livro História da Igreja em Quadros.[11]


OS PRÉ-REFORMADORES


NOMES

DATAS

DESAFIOS PARA A IGREJA

DETALHES PESSOAIS








TOMÁS BRADWARDINE





1290-1349


Realçava a graça de Deus na salvação.


Teólogo e matemático inglês.
Foi nomeado Arcebispo de Cantuária (1349)
Morreu vítima da peste negra.



GREGÓRIO DE RIMINI



m.1358.

Realçava a graça de Deus na salvação.



Filósofo italiano.
Tornou-se monge agostiniano.




JOÃO WYCLIFFE





1329-1384

Negava a Transubstanciação.
Opunha-se ao acúmulo de riquezas da Igreja e à venda de indulgências.
Frisava a autoridade das Escrituras


Foi professor da Universidade de Oxford.
Foi forçado a aposentar-se em consequência da revolta dos camponeses (1381)
Traduziu a maior parte da vulgata para o inglês.
Seu corpo foi exumado e queimado em 1428.




JOÃO HUSS




1373-1415

Definia a Igreja por uma vida semelhante à de Cristo e não pelos sacramentos.
Opunha-se à venda de indulgências e à veneração de imagens.
Reforçava a autoridade das Escrituras.


Sacerdote da Boêmia.
Tornou-se professor da Universidade de Praga.
Foi queimado em praça pública por ordem do Concílio de Constança.



JOÃO DE WESSEL




1420-1489

Negava a transubstanciação.
Opunha-se á venda de indulgências e ao celibato clerical.
Frisava a autoridade das Escrituras.


Teólogo alemão.
Membro dos irmãos da Vida Comum.
Morreu na prisão depois de ser condenado por heresia e depois de se retratar.

JERÔNIMO DE SAVONAROLA


1452-1498

Pregava contra a imoralidade papal.


Monge dominicano italiano
Foi enforcado e queimado por heresia em Florença.

DESIDÉRIO ERAMOS


1466-1536

Atacou a incoerência e a hipocrisia na Igreja.

Humanista holandês.
Compilou o texto do NT grego usado por Lutero.
Satirizou impiedosamente as falhas da Igreja na obra Elogio da Loucura.



[1]  REALE, Giovani. ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Patrística e Escolástica. Vol.2. 2Ed.  São Paulo: Paulus. 2005.  p324
[2]  CHAMPLIN, Russel N. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. São Paulo: Hagnos. p559
[3]  REEVES, Michael. A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da Reforma. Brasília: Monergismo. 2016. p34.
[4]  REEVES, Michael. A Chama Inextinguível: Descobrindo o Cerne da Reforma. Brasília: Monergismo. 2016. p36-37.
[5]  GONZALEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Mártires até a Era dos Sonhos Frustrados. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova. 2011. P497.
[6] Idem. p498.
[7]  Idem.
[8] BOYER, Orlando. Heróis da Fé. 15ed. Rio de Janeiro: CPAD. 1999. p9.
[9]  Idem. p10.
[10] Idem. p12.
[11]  WALTON, Robert C. história da Igreja em Quadros. São Paulo: Vida. 2000. P46.