O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Santos, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

25 de novembro de 2016

A Ética Cristã e os Dez Mandamentos

VI – A ÉTICA CRISTÃ E OS DEZ MANDAMENTOS

Pr. Gilson Soares dos Santos

            Qual a relevância dos Dez Mandamentos para a Ética Cristã? Por um lado existem os legalistas que afirmam que é preciso cumprir a lei para salvar-se. No outro extremo existem os antinomistas que afirmam que o evangelho se contrapõe à lei, tornando os Dez Mandamentos desnecessários para o cristão. Na continuidade do nosso curso, veremos agora a importância dos Dez Mandamentos para a Ética Cristã.

“Calvino foi quem iniciou um estilo quase completamente novo do uso sistemático dos dez mandamentos como base ética. Em suas Institutas, Il.vii 8, ele faz uma exposição da lei moral, para o que utiliza, aproximadamente, cinquenta páginas. Sua defesa, numa longa exposição, é de que “os mandamentos e as proibições sempre deixam implícito mais do que as palavras expressam ... Em todos os mandamentos ... expressa-se uma parte e não o todo... A melhor regra, então, é que a exposição seja direcionada ao desígnio do preceito... como o final do quinto mandamento é que honra seja dada a aqueles a quem Deus determina a honra...” (Il.vii.8)”[1].

            Para um comentário sobre os Dez Mandamentos e sua importância na Ética dos Cristãos, evocaremos o conteúdo que encontra-se na “Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã”, editada por Walter Elwell:

1 – A proibição de outros deuses além do Senhor (Ex 20.3; Dt 5.7)

3 Não terás outros deuses diante de mim. (Ex 20.3).

7 Não terás outros deuses diante de mim. (Dt 5.7)

“O primeiro Mandamento está na forma negativa e proíbe expressamente os israelitas de se entregarem à adoração de deidades estranhas. A relevância do mandamento acha-se na natureza da Aliança. A essência da Aliança era um relacionamento, e a essência daquele relacionamento visava a fidelidade. A fidelidade de Deus ao Seu povo já tinha sido demonstrada no Êxodo, conforme é indicada no prefácio aos mandamentos. Por Sua vez, Deus requeria, mais do que qualquer outra coisa, a fidelidade no relacionamento entre Seu povo e Ele. Assim, embora o Mandamento seja declarado de modo negativo, está repleto de implicações positivas. E a sua posição como o primeiro entre os dez é relevante, porque este mandamento estabelece um princípio notavelmente proeminente nos mandamentos sociais. A relevância contemporânea do mandamento pode ser vista, por- tanto, no contexto da fidelidade no relacionamento. No âmago da vida humana, deve haver um relacionamento com Deus. Qualquer coisa na vida que desfaça o relacionamento primário quebra o mandamento. "Deuses" estranhos, portanto, são pessoas, ou até mesmo objetos, que procuram desfazer a primazia do relacionamento com Deus.”[2]
                       
2 – A proibição das imagens (Ex 20.4-6; Dt 5.8-10)

4 Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5 Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem
6 e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. (Ex 20.4-6)

8 Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra;
9 não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem,
10 e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. (Dt 5.8-10)


“A possibilidade de se adorar a deuses diferentes do Senhor já foi eliminada no primeiro mandamento. O segundo mandamento proíbe os israelitas de construírem imagens do Senhor. Fazer uma imagem de Deus, nos contornos ou formas de qualquer coisa neste mundo, é reduzir o Criador a algo menor que Sua criação, e adorar tal imagem seria uma coisa errada. A tentação para Israel adorar a Deus na forma de uma imagem deve ter sido enorme, pois imagens e ídolos ocorriam em todas as religiões do antigo Oriente Próximo. Mas o Deus de Israel era um Ser transcendente e infinito, e não podia ser reduzido às limitações de uma imagem ou forma dentro da criação. Qualquer redução de Deus deste tipo seria um mal entendido tão radical que o "Deus" adorado já não seria o Deus do universo. No mundo moderno, a forma desta tentação se transformou. Poucas pessoas são tentadas a tomar ferramentas e talhar em madeira uma imagem de Deus, mas o mandamento continua sendo aplicável. A pessoa pode construir com palavras uma imagem de Deus. Se usarmos palavras a respeito de Deus e dissermos: "Deus é exatamente assim, nem mais nem menos", e se elaborarmos os pormenores minuciosos do nosso modo de entender Deus, logo correremos o perigo de criar uma imagem de Deus não menos fixa nem rígida do que a imagem de madeira ou de pedra. Logicamente, não somos proibidos de empregar palavras a respeito de Deus; caso contrário, a religião tornar-se-ia impossível. Mas se as palavras se solidificarem como o cimento, e o nosso modo de compreender Deus tornar-se rígido com tais palavras, estaremos construindo uma imagem. Adorar a Deus na forma de uma imagem em palavras é quebrar o mandamento. Deus é transcendente e infinito, e sempre maior do que quaisquer palavras que uma criatura possa empregar a Seu respeito. O segundo mandamento, portanto, mantém a grandeza e mistério ulteriores de Deus.”[3]

3 – A proibição do emprego impróprio do nome de Deus (Ex 20.7; Dt 5.11)

7 Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão (Ex 20.7)

11 Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. (Dt 5.11).

“Há um modo popular de entender que o terceiro mandamento proíbe linguagem profana ou blasfêmia; ele, no entanto, ocupa-se com uma questão mais grave - o uso do nome de Deus. Deus concedera a Israel um privilégio extraordinário; Ele lhe revelara o Seu nome pessoal. O nome é representado em hebraico por quatro letras: yhwh, traduzidas em nossas Bíblias como "Senhor", "Javé", ou "Jeová". O conhecimento do nome divino era um privilégio, porque significava que Israel não adorava uma deidade anônima e distante, mas um Ser cujo nome pessoal era conhecido. Mas o privilégio era acompanhado por um perigo, a saber: que o conhecimento do nome pessoal de Deus podia causar abusos. Nas religiões do antigo Oriente Próximo, a magia era uma prática comum, que envolvia o uso do nome de um deus, e que, segundo se acreditava, controlava o poder do deus, em certos tipos de atividades que visavam aproveitar o poder divino para os propósitos humanos. Assim, o tipo de atividade proibida pelo terceiro mandamento é a magia, a tentativa de se controlar o poder de Deus por meio do Seu nome, visando um propósito pessoal e indigno. Deus pode dar, mas não deve ser manipulado nem controlado. Dentro do cristianismo, o nome de Deus é igualmente importante. Em nome de Deus, por exemplo, é outorgado o privilégio de acesso a Deus em oração. O abuso do privilégio da oração, envolvendo a invocação do nome de Deus visando-se algum propósito egoísta ou indigno, não é melhor do que a magia do mundo antigo. Nos dois casos, abusa-se do nome de Deus, e o terceiro mandamento é quebrado. O terceiro mandamento é uma lembrança positiva do privilégio enorme que nos é dado no conhecimento do nome de Deus; é um privilégio que não deve ser tratado levianamente nem ser causa de abusos.[4]

4 – A observância do sábado (Ex 20.8-11; Dt 5.12-15)

8 Lembra-te do dia de sábado, para o santificar.
9 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.
10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro;
11 porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou. (Ex 20.8-11)

12 Guarda o dia de sábado, para o santificar, como te ordenou o SENHOR, teu Deus.
13 Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.
14 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro das tuas portas para dentro, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu;
15 porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado. (Dt 5.12-15).

“Este mandamento não tem nenhum paralelo nas religiões do antigo Oriente Próximo; é, também, o primeiro dos mandamentos a ser expressado numa forma positiva. Embora a maior parte da vida em Israel fosse caracterizada pelo trabalho, o sétimo dia devia ser consagrado. O trabalho devia cessar e o dia devia ser mantido santo. A santidade do dia relaciona-se com a razão do seu estabelecimento; são oferecidas duas razões e, embora pareçam diferentes à primeira vista, há um tema em comum que as vincula. Na primeira versão (Ex 20.11), 0 sábado deve ser observado em comemoração da criação; Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Na segunda versão (Dt 5.15), o sábado deve ser observado em comemoração do Êxodo do Egito. O tema que liga as duas versões é a criação; Deus criou não somente o mundo, como também "criou" Seu povo, Israel, ao redimi-lo da escravidão no Egito. Assim, os hebreus deviam refletir sobre a criação; ao assim agirem, estavam refletindo sobre o significado da sua existência. Para a maior parte da cristandade, o conceito do "sábado" [literalmente, "dia do descanso"] foi mudado do sétimo dia da semana para o primeiro, que é o domingo. A mudança relaciona-se com uma alteração no pensamento cristão, identificada na ressurreição de Jesus Cristo, no domingo. A mudança é apropriada, porque os cristãos agora refletem em cada domingo, ou "dia de descanso", num terceiro ato da criação divina, a "nova criação" estabelecida na ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.”[5]

5 – A honra devida aos pais (Ex 20.12; Dt 5.16)

12 Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá. (Ex 5.12).

16 Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá. (Dt 5.16)

“O quinto mandamento forma uma ponte entre os quatro primeiros, que dizem respeito basicamente a Deus, e os cinco últimos, que se referem principalmente aos relacionamentos entre os seres humanos. Numa primeira leitura, parece ocupar-se exclusivamente com os relacionamentos na família; os filhos devem honrar aos pais. Embora o mandamento estabeleça um princípio de honra ou respeito nos relacionamentos familiares, provavelmente refere-se também, a uma preocupação específica. Era a responsabilidade dos pais instruírem seus filhos na fé da Aliança (Dt 6.7), de modo que a religião pudesse ser passada de uma geração para outra. Mas a instrução na fé exigia uma atitude de honra e respeito daqueles que estavam sendo instruídos. O quinto mandamento, portanto, não se ocupa somente com a harmonia na família, mas também com a transmissão da fé em Deus no decurso das gerações subsequentes. No caso do quinto mandamento, há pouca necessidade de se transformar o seu significado em relevância contemporânea. Porém, num século em que tão grande parte da educação é efetuada além dos limites da unidade familiar, o mandamento serve como lembrete solene, não somente da necessidade de uma vida harmoniosa, mas também das responsabilidades no tocante à educação religiosa que recai tanto sobre os pais quanto sobre os filhos.”[6]

6 – A proibição do assassínio (Ex 20.13; Dt 5.17)

13 Não matarás. (Ex 20.13).

17 Não matarás. (Dt 5.17).

“A redação deste mandamento simplesmente proíbe o "matar"; o significado da palavra subentende a proibição do assassínio. A palavra usada no mandamento não se relaciona basicamente com o matar na guerra ou com a pena capital; estas duas questões são tratadas em outras partes da lei mosaica. A palavra podia ser usada para designar tanto o assassínio quanto o homicídio. Visto que o homicídio não culposo envolve morte por acidente, não pode ser razoavelmente proibido; ele, também, é tratado em outro tipo de legislação (Dt 19.1-13). Sendo assim, o sexto mandamento proíbe o assassinato, tirar a vida de outra pessoa por vantagens pessoais e egoístas. Colocado em termos positivos, este mandamento preserva para cada membro da comunidade da Aliança o direito de viver. No mundo moderno, um estatuto semelhante, que proíbe o assassínio, existe em quase todos os códigos legais; tornou-se parte da lei nacional, mais do que uma lei puramente religiosa ou moral. Jesus, no entanto, indicou o significado mais profundo implícito no mandamento; não é somente o ato, mas também o sentimento que está por trás do ato que é mau (Mt 5.21 -22).”[7].

7 – A proibição do adultério (Ex 20.14; Dt 5.18)

14 Não adulterarás. (Ex 20.14).

18 Não adulterarás. (Dt 5.18)

“O ato de adultério é fundamentalmente um ato de infidelidade. Uma pessoa, ou duas, num ato de adultério, está sendo infiel a outras pessoas. É por esta razão que o adultério é incluído nos Dez Mandamentos, ao passo que outros pecados ou crimes pertencentes ao sexo não o são. De todos os crimes desta natureza, o pior refere-se à infidelidade. Assim, o sétimo mandamento é o paralelo social do primeiro. Assim como o primeiro mandamento requer a fidelidade total no relacionamento com o Deus único, assim também este requer um relacionamento semelhante de fidelidade dentro da aliança do casamento. A relevância é aparente, mas, neste caso também, Jesus indica as implicações do mandamento para a vida mental (Mt 5.27-28).”[8]

8 – A proibição do furto (Ex 20.15; Dt 5.19)

15 Não furtarás.

19 Não furtarás.

“Este mandamento estabelece um princípio dentro da comunidade da aliança no que diz respeito às posses e aos bens; uma pessoa tinha direito a certas coisas, que não podia ser violado por um concidadão para a vantagem pessoal deste. Mas embora o mandamento diga respeito aos bens, sua preocupação mais fundamental é a liberdade humana. A pior forma do furto é o "roubo de homens" (algo equivalente ao sequestro moderno), isto é, tomar uma pessoa (presumivelmente à força) e vendê-la para a escravidão. O crime e a lei com ele relacionados são declarados mais plenamente em Dt 24.7. O mandamento, portanto, não somente se ocupa com a preservação dos bens particulares, mas, de modo mais fundamental, com a preservação da liberdade humana e de coisas tais como a escravidão e o exílio. Proíbe a pessoa de manipular ou explorar a vida de terceiros para seu próprio bem. Assim como o sexto mandamento proíbe o assassínio, assim também o oitavo proíbe aquilo que poderia ser chamado assassínio social, podar a liberdade de vida de um homem ou uma mulher dentro da comunidade do povo de Deus.”[9]

9 – A proibição do falso testemunho (Ex 20.16; Dt 5.20)

16 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. (Ex 20.16)

20 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. (Dt 5.20)

“Este mandamento não é uma proibição geral contra mentiras ou inverdades. A redação do mandamento original coloca־ o firmemente no contexto do sistema legal de Israel. Proíbe o perjúrio, o falso testemunho dentro dos processos do tribunal. Assim, estabelece um principio de veracidade e tem suas implicações no tocante a falsas declarações em qualquer contexto. Dentro de qualquer nação, é essencial que os tribunais de justiça operem com base na verdade das informações; se a lei não for baseada na veracidade e na justiça, ficam subvertidos os próprios alicerces da vida e da liberdade. Se o testemunho em juízo for veraz, não poderá haver perversão da justiça; se for falso, perdem-se as liberdades humanas mais fundamentais. Deste modo, o mandamento procurava preservar a integridade do sistema jurídico de Israel e, ao mesmo tempo, guardava contra a invasão das liberdades pessoais. O princípio é mantido na maioria dos sistemas jurídicos modernos; evidencia-se, por exemplo, no juramento prestado antes de alguém dar testemunho num tribunal. Mas, em última análise, o mandamento indica a natureza essencial da veracidade em todos os relacionamentos entre os seres humanos.”[10]

10 – A proibição da cobiça (Ex 20.17; Dt 5.21)

17 Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Ex 20.17)

21 Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. (Dt 5.21)

“O décimo mandamento é curioso no seu contexto inicial. Proíbe o ato de cobiçar ou desejar pessoas ou coisas que pertençam ao próximo (a outro israelita). É curioso achar semelhante mandamento num código de direito penal. Os nove primeiros mandamentos proibiam atos, e um ato pode ser seguido por processo e condenação nos tribunais (se o ato for detectado). O décimo mandamento, em contraste, proíbe desejos ou sentimentos de cobiça. Segundo a lei humana, não é possível processar alguém com base num desejo (seria impossível provar!) O direito hebraico, no entanto, era mais do que um sistema humano. Havia, sem dúvida alguma, tribunais, policiais, juízes e advogados. Mas também havia um Juiz Supremo, que é Deus. O crime envolvido no décimo mandamento não podia ser levado a julgamento dentro das limitações do sistema hebraico; Deus, porém, conhecia o caso. O gênio do mandamento acha-se na sua natureza terapêutica. Não basta simplesmente lidar com um crime uma vez cometido; a lei deve também procurar atacar as raízes do crime. A raiz de quase todo mal e crime acha-se dentro do eu; acha-se nos desejos do indivíduo. Assim, são proibidos os desejos malignos; se o décimo mandamento for plena e profundamente compreendido, o significado dos nove primeiros será muito melhor entendido. Se desejos cobiçosos forem paulatinamente eliminados, então aquele desejo natural que está arraigado dentro de cada pessoa poderá ser dirigido cada vez mais para Deus.”[11]


No Livro “Ética Cristã Hoje: Vivendo um Cristianismo Coerente em uma Sociedade em Mudança Rápida”, de Alan Pallister, publicado no Brasil pela SHEDD Publicações, o autor considera a relevância da lei de Deus, particularmente dos Dez Mandamentos, para uma ética coerente, buscando fundamentar os princípios éticos nos Dez Mandamentos.




[1]  HENRY, Carl. (org.) Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã. 2007. p.231.
[2]  ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova. Volume Único. 2009. p.454.
[3]  Ibidem. p.454-455.
[4]  Ibidem. p.455
[5]  Ibidem. p.455
[6]  Ibidem. p.455-456.
[7]  Ibidem p.456.
[8]  Ibidem.
[9]  Ibidem.
[10]   Ibidem.  p.457.
[11]   Ibidem.

10 de novembro de 2016

A Ética no Antigo Testamento e no Novo Testamento


V – A ÉTICA NO ANTIGO TESTAMENTO E NO NOVO TESTAMENTO

Pr. Gilson Soares dos Santos

Para tratar sobre Ética no Antigo Testamento e Ética no Novo Testamento, transcreveremos aqui, na íntegra, parte do Artigo de Alderi Souza de Matos, intitulado “As Bases Bíblicas da Ética Cristã”,[1] que trata sobre o assunto:

5.1_ A ÉTICA DO ANTIGO TESTAMENTO

5.1.1_ O caráter ético de Deus

A religião dos judeus tem sido descrita como “monoteísmo ético”. O Velho Testamento fala da existência de um único DEUS, o criador e Senhor de todas as coisas. Esse Deus é pessoal e tem um caráter positivo, não negativo ou neutro. Esse caráter se revela em seus atributos morais. Deus é Santo (Lv 11, 45; Sl 99, 9), justo (Sl 11, 7; 145, 17), verdadeiro (Sl 119, 160; Is 45, 19), misericordioso (Sl 103, 8; Is 55, 7), fiel (Dt 7, 9; Sl 33, 4).

5.1.2_ A natureza moral do homem

A Escritura afirma que Deus criou o ser humano à sua semelhança (Gn 1, 26-27). Isso significa que o homem partilha, ainda que de modo limitado, do caráter moral de seu Criador. Embora o pecado haja distorcido essa imagem divina no ser humano, não a destruiu totalmente. Deus requer uma conduta ética das suas criaturas: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19, 2; 20, 26).

5.1.3_ A Lei de Deus

A lei expressa o desejo que Deus tem de que as suas criaturas vivam vidas de integridade. Há três tipos de leis no Antigo Testamento: cerimoniais, civis e morais. Todas visavam disciplinar o relacionamento das pessoas com Deus e com o seu próximo. A lei inculca valores como a solidariedade, o altruísmo, a humildade, a veracidade, sempre visando o bem-estar do indivíduo, da família e da coletividade.

5.1.4_ Os Dez Mandamentos

A grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21). As chamadas “duas tábuas da lei” mostram os deveres das pessoas para com Deus e para com o seu próximo. O Reformador João Calvino falava nos três usos da Lei: judicial, civil e santificador. Todas as confissões de fé reformadas dão grande destaque à exposição dos Dez Mandamentos.

5.1.5_ A contribuição dos profetas

Alguns dos preceitos éticos mais nobres do Antigo Testamento são encontrados nos livros dos Profetas, especialmente Isaías, Oséias, Amós e Miquéias. Sua ênfase está não só na ética individual, mas social. Eles mostram a incoerência de cultuar a Deus e oferecer-lhe sacrifícios, sem todavia ter um relacionamento de integridade com o semelhante. Ver Isaías 1, 10-17; 5, 7 e 20; 10 1-2; 33, 15; Oséias 4, 1-2; 6, 6; 10, 12; Amós 5, 12-15, 21-24; Miquéias 6, 6-8.

5.2_ A ÉTICA DO NOVO TESTAMENTO

5.2.1_ A ética do Novo Testamento não contrasta com a do Antigo, mas nele se fundamenta. Jesus e os Apóstolos desenvolvem e aprofundam princípios e temas que já estavam presentes nas Escrituras Hebraicas, dando também algumas ênfases novas.

5.2.2_ A ética de Jesus: a ética de Jesus está contida nos seus ensinos e é ilustrada pela sua vida. O tema central da mensagem de Jesus é o conceito do “reino de Deus”. Esse reino expressa uma nova realidade em que a vontade de Deus é reconhecida e aceita em todas as áreas. Jesus não apenas ensinou os valores do reino, mas os exemplificou com a vida e o seu exemplo.

5.2.3_ O Sermão da Montanha: uma das melhores sínteses da ética de Jesus está contida no Sermão da Montanha (Mateus Caps. 5 a 7). Os seus discípulos (os Filhos do Reino) devem caracterizar-se pela humildade, mansidão, misericórdia, integridade, busca da justiça e da paz, pelo perdão, pela veracidade, pela generosidade e acima de tudo pelo amor. A moralidade deve ser tanto externa como interna (sentimentos, intenções): Mt 5, 28. A fonte do mal está no coração: Mc 7, 21-23.

5.2.4_ A vontade de Deus: Jesus acentua que a vontade ou o propósito de Deus é o valor supremo. Vemos isso, por exemplo, em Mt 19, 3-6. O maior pecado do ser humano é o amor próprio, o egocentrismo (Lc 12, 13-21; 17, 33). Daí a ênfase nos dois grandes mandamentos que sintetizam toda a lei: Mt 22, 37-40. Outro princípio importante é a famosa “regra de ouro”: Mt 7, 12.

5.2.5_ A ética de Paulo: Paulo baseia toda a sua ética na realidade da redenção em Cristo. Sua expressão característica é “em Cristo” (II Co 5, 17; Gl 2, 20; 3, 28; Fp 4, 1). Somente por estar em Cristo e viver em Cristo, profundamente unido a Ele pela fé, o cristão pode agora viver uma nova vida, dinamizado pelo Espírito de Cristo. Todavia, o cristão não alcançou ainda a plenitude, que virá com a consumação de todas as coisas. Ele vive entre dois tempos: o “já” e o “ainda não”.

5.2.6_ Tipicamente em suas cartas, depois de expor a obra redentora de Deus por meio de Cristo, Paulo apresenta uma série de implicações dessa redenção para a vida diária do crente em todos os aspectos (Rm 12, 1-2; Ef 4, 1)

5.2.7_ Entre os motivos que devem impulsionar as pessoas em sua conduta está a imitação de Cristo (Rm 15, 5; Gl 2, 20; Ef 5, 1-2; Fp 2, 5). Outro motivo fundamental é o amor (Rm 12, 9-10; I Co 13, 1-13; 16, 14; Gl 5, 6). O viver ético é sempre o fruto do Espírito (Gl 5, 22-23).

5.2.8_ Na sua argumentação ética, Paulo dá ênfase ao bem-estar da comunidade, o corpo de Cristo (Rm 12, 5; I Co 10, 17; 12, 13 e 27; Ef 4, 25; Gl 3, 28). Ao mesmo tempo, ele valoriza o indivíduo, o irmão por quem Cristo morreu (Rm 14, 15; I Co 8, 11; I Ts 4, 6; Fm 16)

5.2.9_ Acima de tudo, o crente deve viver para Deus, de modo digno dele, para o seu inteiro agrado: Rm 14, 8; II Co 5, 15; Fp 1, 27; Cl 1, 10; I Ts 2, 12; Tt 2, 12.




[1]  MATOS, Alderi Souza de. As bases Bíblicas da Ética Cristã. in: http://www.mackenzie.br/7153.html, acesso em 23/02/2016.

27 de setembro de 2016

Diretrizes gerais sobre eleições e votação

DIRETRIZES GERAIS SOBRE ELEIÇÕES E VOTAÇÃO
Provérbios 11.14

Pr. Gilson Soares dos Santos

14 Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança.[1]

          Para encerrarmos nossa série de estudos sobre o cristão, a política e as eleições, traremos agora algumas diretrizes gerais sobre eleições e votação.

1_ Não confunda política com campanha eleitoral

          Quando começa a campanha eleitoral, é comum ouvirmos as pessoas dizendo: “começou a política”. Essa frase está errada, pois política acontece todo tempo. Embora a campanha eleitoral esteja dentro da política não devemos confundir.

          Campanha eleitoral é o período em que os partidos e seus candidatos se apresentam para os eleitores em busca de votos.

          Vejo crentes que passam os quatro anos sem falar de política, sem fazer qualquer exigência aos seus representantes, sem fazer nenhuma cobrança àqueles nos quais votaram, sem combater as injustiças sociais.  Porém, quando começa a campanha eleitoral se entregam, sem reservas, vestindo a camisa de candidatos, carregando suas bandeiras, adesivando seus carros, pulando em passeatas, carreatas e comícios. Insultando adversários políticos, levantando falsos testemunhos, mentindo. Trocando os cultos pelos comícios. Fazendo a maior tietagem com candidatos, sempre sob a alegação de que “crente deve participar da política”. Minha pergunta é: por que não participou durante três anos e 10 meses? Por que só participar agora?

         É bom que façamos essa distinção, pois política é muito maior que a campanha eleitoral que, na maioria das vezes, serve apenas para difamações, calúnias, falsos testemunhos e brigas de interesses pessoais.

          Não é que seja errado o crente participar da campanha eleitoral, porém, existe como fazer isto sem escandalizar, mantendo-se como “sal da terra e luz do mudo”.

2_ Vote com consciência

          Quando falamos em votar com consciência, queremos dizer o seguinte:

          a)_ Não venda seu voto

          Não vote em candidato ruim em troca de favores. Não aceite benefícios pessoais para dar seu voto ou angariar votos para candidatos que, já sabemos, não têm compromisso com a política certa e que beneficiarão uma minoria em detrimento da maioria. Candidatos que já exerceram mandato e comprovaram suas maldades. Também não vote em candidato que, mesmo não tendo exercido algum mandato, já dão provas que serão péssimos representantes do povo. Jamais venda seu voto, nem por dinheiro nem por favores. Alguém já disse que "voto não tem preço, tem consequências". Por isso, use sua consciência de cristão: jamais venda seu voto.

          b)_ Não vote em candidatos ou partidos com princípios anticristãos

          O verdadeiro crente não vota nem se filia a partidos que são contra a família e contra os princípios cristãos. Também não vota em candidatos que pregam contra a família, mantendo atitudes anticristãs. Mesmo que esses candidatos tenham propostas de ajuda aos pobres, pois de nada adianta tirar os pobres da situação de pobreza e em seguida acabar com seus valores morais e com suas famílias. Transcrevo aqui a orientação que nos traz Uziel Santana em seu livro “Um Cristão do Direito num País Torto”, a respeito de votar em partidos com programa de governo fechado:

Analisando o programa partidário, os projetos de governos e as resoluções das executivas nacionais dos principais partidos que disputam estas eleições, podemos, afirmar, in claris, que: se sou cristão e democrata, contrário, então, a políticas públicas abortistas, pró-cultura homossexual, de desvalorização da família natural, de cerceamento das liberdades civis fundamentais (como liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de comunicação e imprensa, etc), não posso votar em partidos de programas fechados. [...] porque, além de serem agremiações partidárias que promovem valores anticristãos, segundo estabelecido nos seus Estatutos, nos seus Programas de Governo e nas Resoluções das suas respectivas Executivas Nacionais, sob pena de consequente expulsão dos quadros partidários, todos os políticos membros desses partidos devem atuar, apoiando, promovendo e votando as políticas e ideologias partidárias, não importando a liberdade de consciência dos mandatários eleitos.[2].

          c)_ Dê prioridade a candidatos verdadeiramente cristãos

         Se você conhece um candidato, verdadeiramente cristão, preparado para a vida publica, é nesse que você deve votar. É bom lembrar que existem candidatos evangélicos, de bom testemunho, porém despreparado para assumir um mandato. Por isso, votar com consciência também exige que vejamos o testemunho e o preparo do nosso irmão.

          d)_ Não vote em falsos evangélicos

          Na época de campanha eleitoral surgem muitos candidatos dizendo-se evangélicos, porém são apenas nominais. Na verdade, têm péssimo testemunho, pregam aquilo que não vivem e, certamente, se chegarem ao poder contribuíram para escandalizar o evangelho. Não vote nessas pessoas. A Bíblia traz uma séria orientação a esse respeito em I Coríntios 5.11

11 Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais.[3]

          e)_ Pode votar em candidato não evangélico

          Sabemos que existem candidatos que não são evangélicos, porem tem princípios que são apoiados pelas Sagradas Escrituras. Existem candidatos que, embora não sendo evangélicos, têm moral ilibada, zelam pelos valores da família, defendem uma sociedade com liberdade religiosa, etc. A Bíblia nos mostra reis que, mesmo não sendo crentes, exercitaram a boa política.

          Em defesa dessa posição, Wayne Grudem escreve:

Deus usou a Faraó, o rei do Egito, para elevar José a um cargo de autoridade sobre todo o país, de modo que ele pôde salvar seu povo da fome (Gn 41.37-57). Deus usou Nabucodonosor, rei da Babilônia, para proteger Daniel e seus amigos judeus e elevá-los a cargos de grande autoridade na Babilônia (Dn 2.46-49). Deus usou Ciro, rei da Pérsia, para levar os exilados judeus à sua terra natal (Ed 6.1-12). Deus usou Xerxes, rei da Pérsia, para elevar Ester à posição de rainha e dar a Mordecai grande autoridade e honra em seu reino (Et 6.10,11; 8.1,2,7-15).[4]

          f)_ Vote em candidato que você conheça e que seja acessível

          De preferência, vote em candidato que você conheça e que você tenha acesso para fazer-lhe as cobranças necessárias quando ele estiver no mandato. Afinal de contas, eles estão nos representando. Por isso precisamos saber como contatá-los a fim de cobrarmos que estejam agindo como verdadeiros representantes do povo. Candidato que, após ganhar as eleições, some e reaparece quatro anos depois, certamente não merece nosso voto, pois representante do povo deve estar junto ao povo. Observe esse detalhe.

          g)_ Não anule o voto nem vote em branco

          Quando não votamos, anulamos o voto ou votamos em branco, podemos cair no axioma do filósofo Edmund Burke: “Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada”. Tiago também deu o alerta: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4.17). Por isso vote. Não anule seu voto, não vote em branco.

3_ Ore antes de votar

          Sabemos que muita gente já tem seus candidatos certos. Sendo assim, muitos não oram antes de votar. Porém é preciso orar com sinceridade diante de Deus, pedindo orientação divina. A fim de votarmos certos. Orar antes de votar é semelhante à orientação de Jeremias aos cativos, conforme registrado em Jeremias 29.7:

7 Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao SENHOR; porque na sua paz vós tereis paz.[5].

          Assim como devemos orar pela prosperidade da cidade onde moramos, da mesma forma, devemos orar antes de votar naqueles que governarão em nossa cidade, em nosso estado ou no nosso país, a fim de que possamos ver a paz do lugar onde moramos.



[1]  SBB. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Pv 11.14.
[2]  SANTANA, Uziel. Um cristão do direito num país torto. Campina Grande: Visão Cristocêntrica. 2012. P. 323-324.
[3]  SBB. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. I Co 5.11.
[4] GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova. 2014. P.95.
[5]  SBB. Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Jr 29.7.

21 de setembro de 2016

Por que falar de política para a igreja

I – POR QUE FALAR DE POLÍTICA PARA A IGREJA?
Romanos 13.1-7

Pr. Gilson Soares dos Santos

1 Todo homem esteja sujeito as autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. 2 De modo que aquele que se opõe a autoridade resiste a ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. 3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, 4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. 5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. 6 Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. 7 Pagai a todos o que lhes e devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.[1]

          Talvez alguém ache estranho o fato de tratarmos sobre política na igreja. É normal que muitos reajam dessa maneira até que tenham um entendimento melhor sobre o assunto. É exatamente sobre isso que trataremos agora.

         Falaremos de política na igreja, pelas seguintes razões:

1.1_ A Bíblia fala de questões políticas

          Nas Sagradas Escrituras não encontramos a palavra “política”, pois esse é um termo que nasceu entre os gregos. Todavia, podemos encontrar assuntos que, certamente, estão relacionados ao que conhecemos hoje como “política”. Vejamos quando a Bíblia fala de assuntos políticos:

          a)_ Quando combate as injustiças sociais

          No texto de Amós 2.6,7a, encontramos o Senhor apresentando sua demanda contra as autoridades. Leiamos o texto:

6 Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel e por quatro, não sustarei o castigo, porque os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. 7 Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres e pervertem o caminho dos mansos; um homem e seu pai coabitam com a mesma jovem e, assim, profanam o meu santo nome.[2].

          Comentando sobre isto D. A. Carson escreve:

Amós examina os pecados de Israel de uma perspectiva tanto social (6,7) quanto religiosa (7,8). Sua corrupção em relação aos justos, sua insensibilidade em relação aos mais pobres e sua voracidade em relação aos oprimidos são os fatos primeiramente descritos. 6 O justo, ou seja, alguém inocente perante a lei. Os juízes estavam abertos à corrupção (por dinheiro), veredictos eram vendidos por algo tão insignificante quanto um par de sandálias ou os casos trazidos à justiça eram tratados como se fossem questão tão insignificantes quanto um par de sandálias – tal era a cobiça nessa época.[3]

          No texto bíblico de Amós 8.4-6 é possível encontrarmos uma repetição da demanda de Deus contra Israel concernente às questões sociais, vejamos o texto:

4 Ouvi isto, vós que tendes gana contra o necessitado e destruís os miseráveis da terra, 5 dizendo: Quando passará a Festa da Lua Nova, para vendermos os cereais? E o sábado, para abrirmos os celeiros de trigo, diminuindo o efa, e aumentando o siclo, e procedendo dolosamente com balanças enganadoras, 6 para comprarmos os pobres por dinheiro e os necessitados por um par de sandálias e vendermos o refugo do trigo?[4]

          Sobre isto Champlin escreve:

Além de barganhar com toda a espécie de produtos, eles negociavam com seres humanos, no comércio escravocrata, tanto local quanto internacional. Os seres humanos, nesse comércio, custavam bem pouco: um par de sandálias podia comprar um escravo e até um pouco de trigo relativamente inútil, como aquele varrido do chão (NCV). O sofrimento e os sentimentos humanos nada significavam para aquelas feras humanas.[5].

          b)_ Quando fala do poder das autoridades civis

          O texto que usamos para encabeçar este capítulo, isto é, Romanos 13.1-7 nos mostra, claramente, uma questão política: a autoridade do governo civil
          Comentando sobre isto, Wayne Grudem, em seu livro “Política Segundo a Bíblia”, defende que o texto está tratando de questões políticas:

As autoridades que exercem poder governamental foram ordenadas por Deus (v1,2). [...] O governo tem o papel de promover o bem geral da sociedade. Deve não apenas castigar a má conduta , mas também incentivar e recompensar a boa conduta, que contribui para o bem da sociedade. [...] Os funcionários do governo servem a Deus. Paulo diz que os governantes são servos de Deus “para o teu bem” (v4, cf. v6). [...] Essa passagem é forte corroboração para a ideia de que devemos ver o governo civil como uma dádiva de Deus. [6].

          De igual maneira, encontramos em I Pedro 2.13,14 uma exortação sobre a submissão às autoridades civis. Vejamos o texto:

13 Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, 14 quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.[7]

          Comentando esse texto, D. A. Carson diz:

O bom comportamento deve ser expresso pela aceitação submissa das exigências de toda instituição humana. É admirável que Pedro, provavelmente escrevendo na época de Nero, ainda veja o Estado como designado por Deus para a manutenção dos valores morais.[8]

          c)_ Quando fala para orarmos pelas autoridades

          Quando abrimos nossas Bíblias em I Timóteo 2.1,2 encontramos um mandamento para que oremos pelos reis e por todas as demais autoridades. Isso quer dizer que precisamos orar pelos políticos, ou seja, por aqueles que exercem autoridade política. Vejamos o texto:

1 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, 2 em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.[9].

          Carson faz o seguinte comentário sobre esse texto:

Paulo não somente está desejoso de incluir a todos, mas chama atenção especial aos que exercem autoridade. (2) O que é significativo é que Paulo não faz distinção entre os governantes justos e os que não o são. Ele considera que o cristão tem a responsabilidade de orar por aqueles cujos atos influenciam todos os cidadãos. Mas o propósito da oração é que os cristãos vivam vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.[10].

          Poderíamos encontrar diversos outros textos nos quais a Bíblia trata sobre questões que, de alguma maneira, estão relacionadas à política. Mas os três pontos acima são suficientes para alicerçarmos, biblicamente, que a igreja precisa estar a par de assuntos políticos.

1.2_ Os reformadores trataram sobre questões políticas

          Nós, os congregacionais, temos raízes teológicas nas Sagradas Escrituras, isto é inegável. Porém, nossas raízes históricas estão na Reforma Protestante do Século 16. Sendo assim, é muito importante que observemos o que os Reformadores pregaram. No tocante às questões políticas, eles não foram omissos, também ensinaram ao povo.

          Franklin Ferreira, apresentando o Livro “Política Segundo a Bíblia”, da autoria de Wayne Grudem, expõe uma lista de Reformadores que escreveram sobre assuntos políticos. Vejamos:

          a)_ Martinho Lutero

          “Foi o primeiro dos reformadores a tratar do assunto, em sua obra Da autoridade secular, até que ponto se lhe deve obediência (1523)”[11].

          Podemos compreender, então, que Lutero não somente confrontou as questões religiosas do seu tempo, enfrentando o poder da Igreja Católica Apostólica Romana, mas também tratou de questões políticas, orientando o povo de Deus sobre até que ponto os crentes deveriam submissão às autoridades civis.

          b)_ João Calvino

          “Abordou a matéria nas Institutas da Religião Cristã (1559), ao tratar ‘da administração política’ (IV. XX)
          O Reformador João Calvino, em seu Livro IV das “Institutas da Religião Cristã”, deixa bem claro que, embora seu propósito maior seja escrever sobre a Doutrina Espiritual da Fé, é impelido pela necessidade a escrever sobre a justiça civil e a justiça exterior dos homens. Calvino foi outro dos Reformadores que buscou ensinar o povo de Deus sobre questões políticas.

          c)_ Martin Bucer

          No ano de 1551, outro Reformador Protestante chamado Martin Bucer, escreveu uma tratando que apresenta uma teologia do Estado, a saber, De Regno Christi (O Reino de Cristo).

          d)_ John Ponet

          John Ponet foi um protestante inglês, ele também escreveu um tratado sobre política: A Short Treatise of Political Power (Um breve tratado do poder político), no ano de 1556.

          e)_ Christopher Goodman

          Goodman escreveu a seguinte obra sobre política: How Superior Powers Ought to Be Obeyed of Their Subjects; and Wherein They May Lawfully by God´s Word Be Disobeyed and Resisted [Como poderes superiores devem ser obedecidos por seus súditos; e em que ponto ele spodem legitimamente, segundo a Palavra de Deus, ser obedecidos e resistidos] (1558).

          f)_ Francois Hotman

          François Hotman, por sua vez, ainda segundo Franklin Ferreira, escreveu: Franco-Gallia, Or, Na Account of the Ancient Free State of France, and Most Other Parts of Europe, Before the Loss of their Liberties [Francogália ou Um relato do antigo Estado livre da França e a maioria das outras partes da Europa, antes da perda da liberdade] (1573).

          g)_ Theodoro de Beza

          O sucessor de Calvino, Teodoro de Beza, escreveu: De Jure Magisterium [Do direito dos magistrados] (1574).

          Outros nomes de Reformadores são citados por Franklin Ferreira na apresentação da obra acima mencionada. Porém, esses já são suficientes para acreditarmos que os Reformadores não foram omissos na orientação à igreja, no tocante às questões políticas.

1.3_ Outros teólogos e escritores cristãos escreveram sobre política

          Além dos Reformadores, muitos outros teólogos e líderes cristãos trataram sobre o tema “política” em seus escritos. Ainda recorrendo a apresentação de Franklin Ferreira, no Livro “Política Segundo a Bíblia”, cujo autor é Wayne Grudem, podemos ter uma lista de homens de Deus que consideraram que a igreja precisa saber sobre questões políticas. Vejamos:

          a)_ Samuel Rutheford e Johannes Althusius

          “No período pós-reforma foram escritas duas obras influentes: Lex Rex [A lei é o rei] (1644), de Samuel Rutheford, e Política (1603), de Johannes Althusius, que tem ‘a distinção de ser uma das contribuições centrais para o pensamento político ocidental’”.[12]

          b)_ Outros nomes

          Muitos outros nomes de homens de Deus podem ser apresentados como orientadores dos crentes sobre política: Abraham Kuyper, Karl Barth, Emil Brunner, Reinhold Nieburh, etc.

1.4_ A política que não deve ter espaço na igreja

          Porém, é preciso que os pastores tenham muito quando no ensino sobre política na igreja. Eis alguns cuidados:

          a)_ Evitar campanha político-partidária

          O Código de Ética do Ministro Congregacional, no item que trata sobre “O Ministro e a Política”, traz a seguinte orientação: “1- O Ministro deve evitar se envolver ativamente em campanha político-partidária. 2 – O Ministro não deve manifestar no púlpito de sua Igreja suas preferências eleitorais.”[13].
          É certo que o pastor vota. Também é certo que, na maioria das vezes, o pastor já tem seu candidato escolhido, porém, não é certo que ele se envolva ativamente em campanha a favor de candidato A, B ou C. Em hipótese alguma deve usar o púlpito com essa finalidade.

          b)_ Não ceder o púlpito para campanha política

          Outro tipo de política não cabível na igreja é aquela que cede o púlpito para que candidatos possam fazer qualquer tipo de saudação, mesmo que seja candidatos evangélicos.
          O Código de Ética do Ministro Congregacional, no mesmo item que trata sobre “O Ministro e a Política”, alerta a respeito disso: “O Ministro não deve ceder o púlpito de sua igreja para a realização de campanha política”.[14].

          c)_ Não ceder o púlpito para líderes de movimentos populares

          Procurando esquivar-se de tratar diretamente de temas políticos na igreja, alguns pastores podem ser tentados a levar para os púlpitos de suas igrejas líderes de movimentos populares, julgando com isso prestar um favor à igreja no que concerne a assuntos políticos. Porém, essa não é a maneira correta de orientar a igreja sobre política. O pastor deve se inteirar sobre as questões sociais e, ele mesmo, tratá-las, à luz das Sagradas Escrituras, no púlpito da Igreja.

          Diante do que expusemos aqui neste capítulo, fica claro que é preciso sim falar sobre política na igreja. O propósito é orientar o povo de Deus sobre a importância da política séria. O que não podemos é fazer política tendenciosa no ambiente cristão, tampouco elevar os debates políticos em detrimento da pregação do Evangelho puro e simples. Também é preciso saber que os pastores não devem ceder os púlpitos das igrejas para que políticos façam suas campanhas, mesmo que a plataforma destes políticos seja interessante.




[1]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Rm 13.1-7.
[2]  Ibidem. Am 2.6,7
[3]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 1199.
[4]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. Amós 8.4-7.
[5]  CHAMPLIN, Russel N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 5.  São Paulo: Hagnos. 2001.  p. 3528.
[6]  GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova. 2014. PP. 112-113.
[7]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. I Pe 2.13,14
[8]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 2063.
[9]  SBB. Bíblia Sagrada.  Almeida Revista e Atualizada. Barueri: SBB. I Tm 2.1,2.
[10]  CARSON, D. A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova. 2009. p. 1947.
[11]  GRUDEM, Wayne. Política segundo a Bíblia: princípios que todo cristão deve conhecer. São Paulo: Vida Nova. 2014. p.9.
[12]  Ibidem. p.10..
[13]  ALIANÇA CONGREGACIONAL. Documentos Oficiais: Constituição, Regimento Interno, Código de Ética, 28 Artigos.  João Pessoa: Aliança Editora. 2012. P.96.
[14]  Ibidem. P.97.