O Pr. Gilson Soares dos Santos é casado com a Missionária Selma Rodrigues, tendo três filhos: Micaelle, Álef e Michelle. É servo do Senhor Jesus Cristo, chamado com santa vocação. Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional), Campina Grande/PB; Graduado em Filosofia pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba); Pós-Graduando em Teologia Bíblica pelo CPAJ/Mackenzie (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Professor de Filosofia e Teologia Sistemática no STEC. Professor de Teologia Sistemática no STEMES, em Campina Grande - Paraíba. Pastor do Quadro de Ministros da Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil (AIECB). Pastoreou a Igreja Evangélica Congregacional de Cuité/PB, durante 15 anos (1993-2008). Atualmente é Pastor Titular da Igreja Evangélica Congregacional em Areia - Paraíba.

31 de dezembro de 2014

Pra não dizer que não falei de 2014

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE 2014

Gilson Soares dos Santos

Como todos os leitores deste Blog já sabem, todo fim de ano gosto de filosofar um pouco. Apesar de saber que muitos ainda acham que o filósofo é como “um cego trancado num quarto escuro a procura de um gato preto que nunca foi colocado lá.” O que me leva a filosofar? Talvez isso se deva ao fato da minha formação em Filosofia, ou não. Talvez isso se deva ao fato de que todos nós, queiramos ou não, somos filósofos, ou não. Pelo sim e pelo não quero apenas descrever um pouco o que 2014 foi para mim.

Se eu tivesse que descrever o meu 2014 numa canção, então a canção seria a seguinte:


Passei por duras provas,
Passei por duras lutas,
Sofri perplexidades e impressões,
Mas em cada mau momento de consolo e de sustento,
Aprendi que Deus responde às orações.

Aprendi, eu aprendi,
Através das águas turvas e das chamas de calor.
Aprendi, eu aprendi
A confiar nas promessas do Senhor.

Já andei com tanta gente
Em lugares diferentes,
Mas já me vi tão só mesmo entre os meus.
Nessas horas doloridas, mas preciosas tão vividas,
Aprendi que sou amado por meu Deus.

Dou graças pelos montes,
Dou graças pelos vales,
Problemas que assaltaram o meu viver,
Aprendi a conhece-los, que Deus pode resolvê-los,
Aprendi que sou amado por meu Deus.



Observação: Não sei a autoria da canção acima, aprendi cantá-la, porém nunca soube sua autoria nem quem primeiro a gravou. Por isso não tive como creditá-la aqui. Se conseguir, voltarei num próximo post a comentar sobre a composição e gravação desta letra. Uma coisa sei: essa letra descreve meu 2014.

24 de dezembro de 2014

Quem disse que a Bíblia não manda celebrar o Natal?


QUEM DISSE QUE A BÍBLIA NÃO MANDA CELEBRAR O NATAL?

Disse alguém, alhures: “A Bíblia não nos autoriza a comemorarmos o Natal. De acordo com 1 Coríntios 11.26, o verdadeiro cristão deve anunciar a morte do Senhor, e não o seu nascimento. Não existe nenhum mandamento para celebrarmos o Natal”. Vejamos como esse “argumento” se autodestruirá em alguns segundos.

O texto citado, relativo à Ceia do Senhor, não proíbe o cristão de anunciar o nascimento do Senhor. Diz apenas que devemos anunciar a morte do Senhor até que Ele venha. E a obra redentora de Jesus reside em um tripé, isto é, em três fundamentos: a encarnação, a crucificação e a ressurreição. Logo, se Cristo não tivesse nascido, não teria morrido. E, se Ele não tivesse morrido, não teria ressuscitado para a nossa justificação.

De fato, não há nenhum mandamento específico a respeito do Natal nas páginas da Bíblia. Mas eu pergunto ao leitor: 

— Há alguma ordem bíblica para celebrarmos o nosso aniversário, fazendo um culto de ações de graça por mais um ano de vida e oferecendo bolo aos convidados? 

— Existe mandamento específico para as mulheres casarem com vestido de noiva, branco, com véu e grinalda? Há ordem nas Escrituras para o homem casar de terno e gravata? Há ordem bíblica para o casamento ser realizado primeiro no cartório e depois no templo? Aliás, há mandamento específico que indique o local onde o matrimônio deva ser oficializado? Existe ordem nas páginas sagradas para os noivos fazerem uma recepção aos convidados e, depois, viajarem em lua de mel? 

 — Haja vista ser a Ceia do Senhor uma ordenança de Jesus Cristo, onde está o mandamento para a celebrarmos de mês em mês ou a cada semana?

— Existe ordem bíblica para fazermos a Escola Bíblica Dominical?

— Há mandamento na Palavra de Deus para começarmos o culto às 19 horas, aos sábados, e às 18, aos domingos, por exemplo? 

— Existe mandamento bíblico para termos uma conta no Facebook, no Twitter ou no Instagram?

— Há ordem de Deus na sua Palavra para eu escrever este texto ou ter um blog?

Bem, não existe mandamento específico para celebrarmos o Natal nem para o que citei acima. Mesmo assim, o cristão que se preza tem prazer em anunciar e celebrar o nascimento do Salvador, visto que essa grande festa precede e transcende qualquer tradição pagã. Embora Jesus não tenha vindo ao mundo em 25 de dezembro, Ele nasceu!

E, se há uma data convencionada para essa celebração, por que o cristão não pode usá-la para glorificar ao Senhor por sua gloriosa obra expiatória e apresentar o Evangelho ao mundo? Celebrar o Natal de Cristo é lícito e conveniente ao cristão, visto que a obra redentora abarca a encarnação do Verbo, a sua morte vicária e a sua ressurreição para a nossa justificação.

O Natal é uma festa legitimamente cristã, a qual foi celebrada pela primeira vez por anjos e pastores, naquela sublime noite de Belém (Lc 2.8-20). Essa festa também foi celebrada pela família do Senhor, em uma casa, juntamente com sábios do Oriente, cerca de dois anos após seu nascimento (Mt 2.1-16).

So my family and I wish you a Merry Christmas and a Happy New Year! 

Ciro Sanches Zibordi


PARA LER DIRETO DO BLOG DO CIRO: http://cirozibordi.blogspot.com.br/2014/12/celebrai-o-natal-com-jubilo-todos-os.html.





13 de dezembro de 2014

Calvino era contra a celebração do Natal?

CALVINO ERA CONTRA A CELEBRAÇÃO DO NATAL?

Pr. Gilson Soares dos Santos

Cada dia mais cresce o número daqueles que se posicionam contra a celebração do Natal. Os argumentos? São sempre os mesmos. O pior de tudo é que são argumentos sem fundamentação. Sabemos que em nossa nação, o Brasil, o comércio tira vantagem da celebração do Natal, o catolicismo romano tenta recheá-lo de coisas que nada têm a ver com o nascimento de Jesus. Mas não são razões para que nos posicionemos contra as comemorações do nascimento de Jesus, o Cristo. O problema maior é que existem pessoas que ainda buscam nos reformadores algum apoio para proibirem as celebrações em suas casas e igrejas. Tem gente ainda dizendo que Calvino era contra a celebração do Natal.

Quero trazer de volta uma postagem, que não é nova, de autoria de Solano Portela, onde ele expõe de maneira precisa a posição reformada sobre as celebrações do Natal, principalmente a posição de João Calvino.

Leia a postagem.

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CALVINO CONTRA O NATAL?

Cristãos Contra o Natal!


Como bem observou o Augustus, em seu último post, o impossível está acontecendo: temos um movimento crescente de “Cristãos Contra o Natal”! A chamada “festa máxima da cristandade” está sob ataque cerrado de vários flancos e desta vez a luta é interna! Multiplicam-se os textos e os posicionamentos não apenas contra as características eminentemente comerciais do feriado (esse viés sempre foi um legítimo campo de batalha dos cristãos), mas somos alertados que o Natal não é nada mais do que um feriado pagão assimilado pela igreja medieval, e que persiste no campo evangélico apenas por desconhecimento do seu histórico. Essa origem, além da exploração comercial, inviabilizaria a sua observância religiosa pelos cristãos sendo fútil a tentativa de se resgatar o conceito abrigado no desgastado chavão do “verdadeiro sentido do Natal” (postei algo sobre isso em 20 de dezembro de 2005).


A literatura já nos brindou com alguns exemplos de personagens que não gostavam do Natal. Temos Charles Dickens, no livro Um Conto de Natal (teria sido melhor traduzido como “Um Cântico de Natal”),[1] trazendo a história de Ebenezer Scrooge, durante um período de festividades natalinas. Scrooge era um homem rico, não ligava para ninguém; desprezava as crianças pobres; era avarento e egoísta. Teve, entretanto, um sonho no qual empobrece, modificando sua atitude para com a data. A mensagem de Dickens é que a “essência” do Natal conseguiu derreter aquele coração endurecido. Outro personagem famoso é o Grinch – da pena do escritor Dr. Seuss, que publicava seus contos em rimas. Ele escreveu Como Grinch Roubou o Natal,[2] que virou, anos atrás, um filme com o ator Jim Carey. A história retrata Grinch como uma criatura mal-humorada que tem o coração bem pequeno. Ele odeia o Natal – pois não consegue ver ninguém demonstrando felicidade – e planeja roubar todos os presentes e ornamentos para impedir a celebração do evento em uma aldeia perto de sua moradia. Para seu espanto, a celebração ocorre de qualquer maneira. A mensagem de Seuss é que a “essência” do Natal não estava nos presentes ou nos ornamentos – transcendia tudo isso.

Obviamente os “Cristãos Contra o Natal” não têm relação com qualquer desses personagens, ou com aquele outro, registrado nas páginas das Escrituras Sagradas, que também odiou o Natal – o Rei Herodes,[3] mas parece que está virando moda termos cristãos contra o Natal. Além das razões relacionadas com as origens e da distorção comercial já mencionada, temos cristãos que apresentam algumas razões teológicas firmadas em suas convicções do que seria ou não apropriado ao culto e celebrações na Igreja de Cristo.


Cristãos Reformados Contra o Natal!


No campo reformado, principalmente entre presbiterianos e batistas históricos, os argumentos contra o Natal são ampliados com uma veia histórica. Pretende-se provar que a verdadeira teologia da reforma e, principalmente, os reformadores e seus seguidores próximos, foram avessos à celebração do Natal. Argumenta-se que a celebração do Natal fere o “princípio regulador do culto”, defendido pela ala reformada da igreja. Consequentemente, se desejamos ser seguidores da reforma, teríamos que, coerentemente, rejeitar a celebração desta data. Nessa linha de entendimento, muitos artigos têm sido escritos[4] presumindo uma linha uniforme de pensamento nos teólogos reformados e correntes denominacionais reformadas no que diz respeito à rejeição da comemoração do Natal. Normalmente, também, o raciocínio se estende a outras datas celebradas no seio da cristandade, tais como a páscoa, que seriam igualmente condenáveis no calendário cristão. Por vezes, a defesa apaixonada deste ponto de vista tem resultado em dissensões e desarmonia no seio da igreja, ou de demonstração de um espírito de superioridade espiritual e auto justiça, com críticas mordazes e ferinas aos que não se convenceram do embasamento teológico, histórico ou bíblico para a rejeição.

Deixando de lado a questão das origens – se elas têm a força de determinar a correção de uma observância religiosa – o que seria um ensaio à parte, será que a opinião dos reformadores foi sempre uniforme com relação à celebração do Natal e de outras datas importantes ao cristianismo? Será que houve sempre tanta harmonia assim, nas denominações reformadas, com relação à rejeição da comemoração do Natal resultando nessa tradição monolítica? Será que Calvino, realmente, se posicionou contra o Natal? Será que procede o que me escreveu uma vez um irmão reformado, dizendo que a rejeição do Natal seria “coerente com a fé cristã bíblica e reformada, principalmente com a posição presbiteriana histórica, a partir de Calvino e Knox”?


Calvino Contra o Natal?


A primeira coisa que temos a observar é que essa hipotética concordância entre Calvino e Knox não existiu. Nem há uma visão monolítica, sobre a questão, no seio reformado histórico, como muitos pretendem transmitir. Aquele irmão, em sua carta, desafiava: “por favor cite uma fonte primaria de onde Calvino aprova o Natal ou recomenda o mesmo”.


Bom, se é isso que vai ajudar, vamos a ela: uma das fontes primárias é uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551 (Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters, editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, 454 páginas; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858). Nela, Calvino escreveu: “Priusquam urbem unquam ingrederer, nullae prorsus erant feriae praeter diem Dominicum. Ex quo sum revocatus hoc temperamentum quae sivi, ut Christi natalis celebraretur”.


Para alguns, isso bastaria para resolver a questão, mas para o resto de nós – entre os quais me incluo, a versão ao vernáculo é necessária. Possivelmente, uma tradução razoável para o português, seria (agradecimentos ao Rev. Elias Medeiros): “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa exceto no dia do Senhor. Desde então eu tenho procurado moderação afim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”.


Uma outra carta, de março de 1555, para os Magistrados (Seigneurs) de Berna, que aderentemente eram contra a celebração do Natal, diz o seguinte: “Quanto ao restante, meus escritos testemunham os meus sentimentos nesses pontos, pois neles declaro que uma igreja não deve ser desprezada ou condenada porque observa mais festivais do que outras. A recente abolição de dias de festas resultou apenas no seguinte: não se passa um ano sem que haja algum tipo de briga e discussão; o povo estava dividido ao ponto de desembainharem as suas espadas” (mesma fonte). No contexto, Calvino parece indicar que os oficiais que haviam abolido a celebração tinham boas intenções de eliminar a idolatria (vamos nos lembrar da situação histórica), mas parece igualmente claro que ele indica que, se a definição estivesse em suas mãos teria agido de forma diferente.


Historicamente, Knox e a igreja a Igreja Escocesa seguiram a opinião dos oficiais de Genebra. Ou seja, em seu contexto histórico de se dissociar de tudo que era catolicismo, reforçou a abolição das festividades, nas igrejas. Mas não esqueçamos que ele também rejeitou instrumentos musicais, cânticos, e várias outras formas de adoração – os “Reformados Contra o Natal” estão dispostos a segui-lo em tudo, como parâmetro infalível?


Ocorre que Calvino é sempre apontado como uma força instigadora e radical, na gestão de Genebra. Na realidade, entretanto, ele agiu, em muitos casos (como no incidente de Serveto) como um pólo de moderação e encaminhamento, mas nem sempre sua opinião prevaleceu. O governo de Genebra era conciliar e fazia valer a visão da maioria. Por exemplo, o Rev. Hérmisten Maia Pereira da Costa aponta que a persuasão de Calvino era a de que a Santa Ceia devia ser celebrada semanalmente, enquanto que nas cidades de Berna e Genebra, no máximo era celebrada quatro vezes por ano. Calvino deu até o que poderíamos chamar de um “jeitinho reformado” ou de um “jogo de cintura” notável. Hérmisten cita: “Calvino procurou atenuar a severidade destes decretos fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo assim oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha” [William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-141] Costume este que se tornou comum na Escócia. [Cf. William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].


Hérmisten aponta também que em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd.
John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141]. A conclusão óbvia é a citada pelo Hérmisten: “As cinco festas da Igreja Reformada eram: Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa, Assunção e Pentecostes” (Cf. Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 28)]. Podemos dizer que não havia, na essência da questão, celebração do Natal, em Genebra?

A suposta unidade monolítica e histórica dos reformados, sobre esta questão das celebrações de festividades do chamado “calendário cristão” é mais um mito do que verdade. Ousaríamos rotular o Sínodo de Dordrecht (Dordt) de “não reformado” – justamente de onde extraímos os Cinco Pontos do Calvinismo (em 1618)? Pois bem, em 1578, temos a seguinte decisão: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”. Assim, as igrejas reformadas procedentes do ramo holandês comemoram várias dessas datas até em dose dupla (incluindo o dia seguinte). Augustus mencionou não somente este trecho, mas adicionou a admissão dessa visão na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 21) e na Confissão Helvética (XXIV). Não ve, igualmente, dano na celebração do Natal, um outro ícone reformado, Turretin (1623-1687)[5]. Ou seja, a rejeição do Natal, atualmente “ressuscitada”, não tem o respaldo histórico-teológico que pretende ter.


Obviamente todos esses referenciais históricos são importantes, mas o que firma a nossa convicção é a Palavra de Deus e nela aprendemos que a questão das origens não determina a propriedade, ou não, de uma coisa ou situação, mas sim a atitude de fé do utilizante. Isso pode ser extraído de um estudo de 1 Coríntios 8.1-13; ou examinando como os artefatos e itens preciosos, surrupiados pelos Israelitas dos Egípcios (imediatamente antes do Êxodo), muitos dos quais com certeza utilizados em cultos e festividades pagãs, foram utilizados em consagração total (e sem restrições) no Tabernáculo (Ex 35 a 39). Das Escrituras, podemos inferir, possivelmente, que Jesus participou de celebrações de festividades que não procediam das determinações explícitas da Lei Mosaica, mas que refletiam ocorrências históricas importantes na história do Povo de Deus – como as festas de Purim[6] e Hanucah[7] – deixando implícita a propriedade dessas celebrações, como algo que, provém “de fé”, não sendo, portanto, pecado. Romanos 14 e 15 trazem considerações sobre tais questões, demonstrando a necessidade da consciência pura, ao lado da preocupação com os irmãos na fé, para que procuremos “as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua”. É lá igualmente que lemos (14.15): “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias; cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente”. Se Deus decidiu não disciplinar condenatoriamente a questão, não o façamos nós.


Um Feliz Natal Reformado a todos!


Solano Portela


[1] Charles Dickens, Um Conto de Natal (S. Paulo: Rideel, 2003), 32 pp.


[2] Dr. Seuss, Como Grinch Roubou o Natal (S. Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000), 64 pp.


[3] Mt 2.1-18. Herodes, conhecido como “o Grande” e “Rei dos Judeus”, nasceu em 73 a.C. Filho de Antipater II – era da região chamada induméia e foi indicado pelo imperador romano Júlio César como “governador da Judéia”.


[4] Veja, por exemplo, Brian Schwertley e seu artigo “The Regulative Principle of Worship and Christmas”, postado, entre outros sites, em: http://www.swrb.com/newslett/actualnls/CHRISTMAS.htm (acessado em 18.12.2003).


[5] Turretin admite as celebrações de dias especiais pelas igrejas, desde que estes não sejam impostos por elas como matéria de fé, ou considerados mais santos do que os demais. Referindo-se à censura de igrejas que haviam escolhido não celebrar o Natal e outras datas, sobre outras igrejas cristãos, ele escreve: “não podemos aprovar o julgamento rígido daqueles que acusam essas igrejas de idolatria” (Institutes of Elenctic Theology (Philipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 1994), vol 2 p. 100.


[6] Possivelmente a festividade relatada em João 5 – relacionada com os incidentes narrados no livro de Ester.


[7] Ou “Chanukah” – festividade originada na época dos Macabeus, em celebração ao livramento físico do Povo Judeu. Jesus estava em Jerusalém na época da celebração (João 10.23-30).








Se quiser ler o post diretamente do Blog do Solano Portela, é só acessar o endereço abaixo:

http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/12/calvino-contra-o-natal.html.







9 de dezembro de 2014

Evangélicos com alma católica


EVANGÉLICOS COM ALMA CATÓLICA

Pr. Gilson Soares dos Santos

Dia 08 de Dezembro de 2014, trânsito congestionado na pequena cidade de Areia, na Paraíba: motos, ônibus, carros de passeio, caminhões-pipa, carros de transporte alternativo e pedestres. Motivo? Festa da padroeira da cidade, denominada senhora da conceição. Fiquei observando da varanda do apartamento onde moro a correria, o stress dos motoristas, a tentativa de alguns no propósito de “desatar o nó” que havia se formado no trânsito. Fiquei por algum tempo pensando sobre os eventos católicos, suas conquistas, seus dias feriados no calendário. Mas também fiquei pensando na grande influência dessa religião sobre a nação brasileira. Meu pensamento continuou no dia seguinte. Resolvi fazer uma leitura em um livro evangélico, O que estão fazendo com a igreja, de autoria do Pr. Augustus Nicodemus Lopes. Nesse livro, no capítulo dois, que traz o título “A alma católica dos evangélicos no Brasil”, o reverendo trata dessa influência católica na nação brasileira, especificamente sobre muitos que se declaram evangélicos. Resolvi postar uma síntese sobre como Nicodemus trata o tema.

Para Nicodemus (2008, p.25), “os evangélicos nunca conseguiram se despir totalmente da influência do catolicismo romano.”, isto, obviamente, explica a crise pela qual a igreja evangélica brasileira se encontra. Isso não quer dizer, segundo o autor, que não tenha acontecido o novo nascimento no evangélico, pois, “Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos.” (LOPES, 2008, p.25). Ele elenca algumas heranças católicas que teimam em estar na alma evangélica brasileira:

1 – O gosto por bispos e apóstolos

Os brasileiros, seguindo o sistema papal, têm gosto por bispos, catedrais, pompas e rituais. Os evangélicos tendem para o mesmo, por isso é fácil aceitar bispos e apóstolos que se autonomearam assim. Infelizmente, “A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções.” (idem, p, 26).

Mesmo encontrando nas Escrituras que um dos requisitos para o apostolado é ser testemunha da ressurreição de Cristo (Atos 1.21-22); mesmo sabendo que todos os apóstolos viram o Cristo ressurreto, inclusive Paulo, (I Co 15.5-8); mesmo sendo orientados que o cristianismo histórico sempre entendeu que Paulo foi o último dos apóstolos; muitos chamados evangélicos brasileiros aceitam em seu meio pessoas que se autodeclaram apóstolos.

2 – A ideia de que pastores são mediadores entre Deus e os homens

“No catolicismo, a igreja e mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgencias. as orações. É através dos sacerdotes católicos que essa graça é concedida, pois são eles que, com suas palavras, transformam na missa o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a agua benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão. Em alguns casos, o padre é visto como "outro Cristo", um canal de mediação entre o rebanho e Deus.” (idem, p.27).

Os evangélicos assimilaram essa tendência católica com poucas alterações. Basta ver que muitos só acreditam na oração do pastor, de preferência com imposição das mãos. O neopentecostalismo tem explorado esse ranço católico, fazendo o fiel acreditar que a oração do “obreiro”, do “bispo” ou do “apóstolo” é mais poderosa do que a oração dos demais crentes.

3 – O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados

“O catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afrobrasileiras, semeou misticismo e superstição durante séculos na alma nacional, enaltecendo milagres de santos, posse de relíquias, aparições de Cristo e de Maria, unção e santificação de objetos, água benta, entre muitos outros.” (ibidem, p.28).

Quem disse que muitas igrejas que se declaram evangélicas não têm feito o mesmo? Copo d’água fluidificada, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, galhos de arruda, pentes santos do kit de beleza da Rainha Ester, oração nos montes, óleos ungidos, água do Jordão, cajado de Moisés, patuás, amuletos, dentes de alho, martelinho da prosperidade, toalha do ‘apóstolo’, etc. Toda essa herança católica está na alma de muitos evangélicos.

4 – A separação entre sagrado e profano

Para o católico, sagrado é tudo aquilo que substanciado na Santa Igreja. Tudo aquilo que a gente vai fazer na igreja é sagrado. Tudo o que acontecer fora disso é profano. Nesse sentido, trabalho, estudos, as ciências, tudo é profano.

“Hoje, os evangélicos parecem partilhar a mesma visão. Falta-nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo, na área da educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque nossos filhos, do ensino fundamental ate o superior.” (Idem, p.29).

Uma coisa deve ficar clara: o autor não está defendendo que devemos aliar as coisas pecaminosas às coisas de Deus, no propósito de acabar com a dicotomia sagrado/profano. O problema é que muitos evangélicos demonizam tudo aquilo que não está subjugado à igreja. Segundo a Bíblia, não há, para o verdadeiro cristão, uma separação entre sagrado e secular, pois pertencemos a Cristo em tudo o que fazemos na igreja ou fora dela, porém o cristão deve manter-se longe do pecado e das corrupções do mundo.

5 – Somente pecados sexuais são realmente graves

No catolicismo, os pecados punidos são aqueles relacionados à área sexual.

“Nas igrejas evangélicas - onde se sabe que, segundo a Bíblia, todo pecado é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra urn só mandamento e culpado de todos - é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado, destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade, maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas objetivam, via de regra, pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação.” (Idem, p.30).

O Pr. Augustus Nicodemus (idem, p.31), conclui o capítulo dois da seguinte forma:

‘Um dos efeitos mais destrutivos dessa mentalidade romanista e que
pavimentou em vários aspectos o caminho para a entrada do liberalismo teológico no cenário evangélico. Pois o ponto central dessa mentalidade e, em ultima analise, o enfraquecimento das Escrituras como a Palavra de Deus, a única regra de fé e prática. A autoridade e a mediação dos bispos e apóstolos, o uso de objetos ungidos como pontos onde a fé se apoia, a ênfase em determinados pecados em detrimento de outros igualmente condenados na Bíblia serviram para enfraquecer a autoridade das Escrituras dentro do evangelicalismo. Assim, o catolicismo preparou os evangélicos para aceitarem outra fonte de autoridade além da Bíblia. Nesse contexto, a tarefa dos liberais, de desacreditá-la sutilmente como a infalível e autoritativa Palavra inspirada de Deus, tornou-se muito mais fácil, relativizando seu sentido e expurgando-a de seu caráter normativo.”

E aqui concluímos essa postagem que chama a atenção para a necessidade urgente de a igreja evangélica brasileira desvencilhar-se do ranço católico romano. Não para que sejamos anticatólicos, mas para que sejamos bíblicos, cada vez mais bíblicos.


BIBLIOGRAFIA

LOPES, Augustus Nicodemus. O que estão fazendo com a igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão. 2008.